Radiohead - Amnesiac (2001)

Amnesiac, a vanguarda do rock
[Por Marco Tomazzonido do iG Música e do US Cultura para o site Scream & Yell]

No início do século, o Radiohead era aquele grupo que tinha esculpido um lugar na santíssima trindade do rock contemporâneo com o irrefutável “Ok Computer”. A soberania não fez com que o grupo pisasse no freio e, na virada da década, o mítico ano 2000, apareceu “Kid A”, um disco que abria mão das guitarras para investir em inquietude, experimento e dor, muita dor. A surpresa foi, apenas oito meses depois, “Amnesiac” ter sido lançado, irmão em primeiro grau do álbum anterior.

Ambos foram gravados nas mesmas sessões e separados ao nascimento. Não são poucas as coletâneas encontradas na web em que fãs tentam achar qual seria a ordem correta das faixas se as gravações tivessem dado origem a um disco duplo. Apesar do parentesco inconteste, cada um tem sua personalidade. “Amnesiac” não se trata, como alguns simplistas possam pensar, de uma coleção posterior de lados B, pelo contrário: os álbuns refletem prismas diferentes. Como disse Thom Yorke, “Kid A” vê fogo na floresta; em “Amnesiac”, se está na floresta.

A filiação, no entanto, deixa evidente a tentativa de abandonar o rock tradicional, entre aspas, e abraçar a vanguarda, onde não se tem fronteiras. Versos quebrados, filosofia e eletrônica entram em cena para atirar ao alto a vontade de agradar as massas e agradar, sim, as massas cinzentas. O guitarrista Ed O’Brien já afirmou que o objetivo do quinteto era trabalhar como um coletivo, subverter o conceito de banda para investir em “sons”, por mais abstrato que isso possa parecer. O fato é que eles chegaram a algo parecido, uma maturidade interna iniciada no experimentalismo de “Kid A”, em que melodias deram espaço a texturas perturbadas, herméticas, complexas como harmonias de jazz e circulares como krautrock.

“Amnesiac” abre com “Packt Like Sardines in a Crushd Tin Box”, que repercute na percussão metálica a lata do título. A melancolia, desespero e desilusão característicos da pena de Yorke temperam a letra. “Após anos de espera, nada aconteceu”, ele canta, numa linha eletrônica típica do Aphex Twin, entremeada por distorções e ruídos climáticos, originários de um território desconhecido.

Na época, Thom Yorke declarou à imprensa britânica que o álbum transmite a sensação de se “encontrar um velho baú no sótão recheado com notas, mapas e descrições de um lugar de que você não consegue se lembrar”. Na contracapa, uma advertência na mesma linha: “Guarde longe da luz direta, preferencialmente numa gaveta escura com seus segredos”.

Ecos disso deságuam na primeira faixa de “Amnesiac” e escorrem por todas as outras. “Pyramid Song”, a canção seguinte, trata pura e simplesmente de suicídio. O piano dita notas melancólicas e carregadas de agonia, apenas três, para uma bateria no fundo, firme, acentuar o drama. “Não havia nada para temer e nada para duvidar.” Com ajuda das orquestrações de Jonny Greenwood, tenta nos convencer do alívio da morte. Música nada usual para ser escolhida como primeiro single, prova de que, apesar de ligado à EMI, o Radiohead não tinha nada de submisso e segurava com garbo as rédeas da carreira.

Yorke chegou a falar que “Pyramid Song” era a melhor coisa que o Radiohead já tinha gravado. Hoje nem ele deve mais acreditar nisso: disse no calor da hora, talvez numa tentativa de autoafirmação ou validação da experiência do grupo. Até porque o mesmo ar experimental e de efeitos distorcidos passeia por “Pull/Pulk Revolving Doors”, liderada por uma batida eletrônica envolvente como as portas da letra, armadilhas que se fecham para não abrir mais.

A primeira grande gema reluz em “You and Whose Army?”. Um coro cantarolando no início dá a entender que vem beleza, e só surge dor. Acompanhado por uma guitarra chorosa, Yorke debocha com voz cambaleante, de alguém que já apanhou, a boca cheia de sangue, moral na sarjeta, mas seguro de que estar na pior não quer dizer porcaria nenhuma. “Pode vir se você acha que consegue encarar todos nós”, desafia, em um recado direto, dizem, ao então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e a seus companheiros do partido trabalhista.

As guitarras, cuja ausência serve de munição para a grande maioria dos detratores de “Kid A” e “Amnesiac”, dão seu recado em “I Might Be Wrong”, também título do álbum ao vivo lançado pouco depois. Levemente dançante, a música dá destaque para o baixo de Colin Greenwood e muda de clima rumo ao final, abrindo alas, veja só, para um pequeno solo de O’Brien.

Na sequência, vem a assombrante “Knives Out”. Sem experimentações, segue uma linha de guitarra que se esgueira do início ao fim. A simplicidade, reza a lenda, fez com que ela levasse mais de um ano para ser concluída, já que o grupo nunca parecia estar satisfeito com o resultado. A letra, um primor, é aberta o suficiente para ser interpretada como canibalismo, como Yorke já comentou, ou como a perda de um ente querido. É mais divertido, claro, imaginar que se trata de uma aventura canibal encerrada com o verso “coloque ele na panela”.

Incluída em “Kid A”, “The Morning Bell” ganhou uma regravação diferente, e melhor. Saiu a bateria marcada de Phil Selway para entrar um xilofone, lindo, evocando um desespero angelical, seja lá o que isso for. A instrumental “Hunting Bears” também supera “Treefingers”, do disco anterior. Sozinha, acompanhada apenas pelo vento (!) e por um sintetizador discreto, a guitarra de Jonny evoca um clima árido típico das trilhas sonoras de Ry Cooder.

Se “Amnesiac” tem seus pontos altos, peca por não ter uma sequência deliberada – o conjunto de faixas é menos coeso do que “Kid A” e é agrupado de modo arbitrário, dizem até que de forma proposital, para provocar uma estranheza clara entre os dois discos. Especulações à parte, é notório que “Dollars & Cents”, uma crítica genérica de Yorke ao sistema financeiro, e “Spinning Plates”, quase ininteligível ao brincar com sons ao contrário, seguem o mesmo espírito do álbum, mas têm menor quilate no conjunto.

O mesmo não se pode dizer de “Life in a Glass House”. Gravada no final de 2000, em uma sessão de estúdio exclusiva, a música dá um passo à frente ao flerte com o jazz esboçado em “The National Anthem” e, grosso modo, é justamente isso: o Radiohead tocando jazz. Na verdade, o crédito é mais de Humphrey Lyttelton e sua banda – o saudoso trompetista, na época com 80 anos, é apontado por Greenwood como o principal responsável pela faixa. Ao lado do clarinete, o trompete brilha no refrão, em um dos principais destaques do álbum. Não é a despedida sacra e redentora de “Motion Picture Soundtrack”, mas fornece a salvação do mesmo modo.

Importa saber para onde pende a balança, se para “Kid A” ou “Amnesiac”? Nem um pouco. A competição entre irmãos é real (quem tem sabe como funciona) e, por mais que os pais digam o contrário, sempre há um preferido. Há quem aposte no primogênito, outros vão acabar ficando com o irmão menor, tem gosto para tudo. Importa, sim, é que juntos os dois álbuns demarcam um dos alicerces do que é o Radiohead hoje, pós “Hail to the Thief” e o cheque-mate midiático de “In Rainbows”: a banda mais influente do rock mundial, uma mistura de guitarras, melodia e vanguarda. Parece definitivo, presunçoso demais, como as verdades sempre parecem.

Radiohead
Amnesiac
(2001)

1. Packt Like Sardines In A Crushed Tin Box
2. Pyramid Song
3. Pull/Pulk Revolving Doors
4. You And Whose Army?
5. I Might Be Wrong
6. Knives Out
7. The Morning Bell/Amnesiac
8. Dollars And Cents
9. Hunting Bears
10. Like Spinning Plates
11. Life In A Glasshouse

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Radiohead - Kid A (2000)

Kid A, o Radiohead no topo do mundo
[Por Luís Henrique Pellanda para o site Scream & Yell]

A Melancolia sempre esteve clinicamente ligada à personalidade artística. Doença ou estado de espírito, ela pode revelar tanto o gênio quanto a perversidade. Na história, na literatura, nas artes em geral, não foram poucos os melancólicos patológicos, fictícios ou não, que exibiram, com prazer e em público, seu dom maior e mais particular: um senso de humor singularíssimo, irreverente mas fechado para o entendimento médio. Melhor exemplo disso é Hamlet, espécie de precursor da melancolia do Ocidente.

Radiohead. Aí está uma banda que não ri. Ou raramente ri. A acidez quase infantil de Thom Yorke, em contraste violento com a afetação doce de sua voz, sugere aquele mal-estar típico dos que parecem estar sofrendo de uma azia constante, ali, bem no estômago da alma. O que não impede ninguém de achar graça nele e no que ele faz. No bom sentido. Porque Yorke tem declarado à imprensa, de forma velada, a sinceridade de suas intenções cômicas. Afinal, todo cronista do absurdo é, por obrigação, um pouco comediante.

E a piada da vez é fazer pouco caso da importância que o mundo passou a dar às suas queixas. Yorke, hoje, é um menino mimado. Objeto de culto incondicional, tornou-se o juggernaut ao qual ele próprio se referia em “Ok Computer”, o tal “carro de Jagrená” da mídia, alvo de devoção cega e sacrificial. Em outras palavras: uma droga de vaca sagrada. É um lunático genial e depressivo; um infeliz tão experiente e conhecedor de sua desgraça que pressupõe-se que se use sempre ouvi-lo e consultá-lo. Mas estejamos atentos: Hamlet também fingiu ser louco, e essa sua demência tática era o que tinha de mais original e divertido.

Divirtam-se, portanto, e sem culpa: é tudo pose, é máscara e teatro. Ironia marota, projeto de mau humor, tratado leve de niilismo. Thom Yorke, grande artista pop, deve ter lido Voltaire antes de compor as canções deste excelente “Kid A”. Logo na primeira faixa, “Everything In Its Right Place”, ele parafraseia o autor de “Cândido” ou “O Otimismo”. No clássico de Voltaire há um pretenso sábio, caolho e sifilítico, Pangloss, que passa a vida repetindo a máxima do pensamento mágico e positivo: tudo está o melhor possível neste que é o melhor dos mundos possíveis. Na canção do Radiohead, Yorke macaqueia os que acreditam na repetição hipnótica de uma idéia como método para transformá-la em realidade prática. Mil vezes seguidas ouve-se o verso: “Tudo está em seu devido lugar”. Esta impressão de paródia é ainda mais sensível na faixa 6 que, providencialmente, chama-se “Optimistic”. E o refrão proclama a grande mentira do conformismo moderno: “Se você faz o melhor que pode, então o seu melhor possível já é bom o bastante”.

Agora que está no topo do mundo, o Radiohead brinca com a própria imagem. Lança um disco em que foge de quase tudo o que o fez popular: não há guitarras sujas nem melodias espaçosas; a voz de Yorke está camuflada, pequena, escondida sob a produção linda e quase gelada de Nigel Godrich, o mesmo de “Ok Computer”. O disco todo, aliás, é frio. E é surpreendente como lembra, às vezes, Kraftwerk. Há pouco de humano (e, estranhamente, muito de alemão) em “Kid A”. De longe, por controle remoto. Nunca dá margem a crescendos emocionais. Em “How to Disappear Completely”, Yorke canta: “Não estou aqui. Isso não está acontecendo”. E é a mais pura verdade.

Em todo o disco, não se pronuncia a palavra “love”. Como se o amor fosse artigo proibido. Cândido, aquele “otimista”, já dizia: “Para cada beijo, vinte pontapés por trás”. Também não há sexo nem ódio, não se fala em nada edificante nem desprezível. E, paradoxalmente a essa ambiência desagradável de morte dos sentidos/sentimentos, dentro da armadura blasé que veste e protege “Kid A”, ainda há espaço para referências inesperadas à cantigas de roda infantis e bestas, recordações de cirandas lúdicas e passadas.

Na faixa-título, Yorke diz: “Ratos e crianças me seguem para fora da cidade”. É que ele se compara ao vingativo flautista de Hamelim, personagem de Robert Browning, poeta inglês do século XIX. O flautista do poema, com a doçura de sua música, encanta primeiro os ratos daquela cidade. Os bichos se atiram no rio e morrem. Depois, ele enfeitiça as crianças do lugar, que o seguem dançando até desaparecerem na floresta. O flautista livra, assim, Hamelim de um mal: afoga na corredeira os seus pavores e mágoas. Mas, levando embora seus filhos, rouba, do povo de Hamelim, toda a inocência e alegria, a fé na continuidade de cada vida. E, fora isso, o que resta? Voltar ao primeiro parágrafo.

Faixa a Faixa:

‘Everything In Its Right Place”: R.E.M. A sonoridade sem data de “Up”. Envelhecimento artificial. Yorke segue Stipe. Como se sente? “Acordei chupando um limão”.

“Kid A”: Kraftwerk. A voz robótica é quase inaudível. Descaracterização intencional.

“National Anthem”: O groove lembra “Airbag”. Voz entubada. Uma dúzia de músicos de sopro irrompe em sessão de jazz inusitada.

“How to Disappear Completely”: Balada do velho Radiohead. Suspeita de quem a ouve: quando Yorke diz que desapareceu, acreditar nele parece fácil. Um fantasma convincente afirmando que não existe.

“Treefingers”: Bowie e Eno fizeram parecido com as peças instrumentais dos discos berlinenses. É a Alemanha, de novo. Ninguém vai dar a mínima.

“Optimistic”: Convencional e irônica. Parodia uma canção infantil tradicional: “Um porquinho foi ao mercado, outro veio do pântano”.

“In Limbo”: Um pouco amortecida, de propósito. Em um mundo de fantasias de beleza, prazeres estéticos fáceis.

“Idioteque”: Yorke canta com raiva pela primeira vez em meia hora. Contradiz a obra: “Isto está acontecendo de verdade”. Última chance para dizer “presente”.

“Morning Bell”: Irrelevâncias da separação: “quem vai ficar com a mobília?” Alguém quer partir: “Onde você estacionou o carro?” O julgamento sábio de Salomão: “Corte as crianças ao meio”. Triste, terrível.

“Motion Picture Soundtrack”: Base de acordeão. O abre-e-fecha das palhetas. De repente, um ataque de harpa. Parece Disney. Acaba e você está feliz.

Radiohead
Kid A
(2000)

1. Everything In Its Right Place
2. Kid A
3. The National Anthem
4. How To Disappear Completely
5. Treefingers
6. Optimistic
7. In Limbo
8. Idioteque
9. Morning Bell
10. Motion Picture Soundtrack
11. Untitled

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Radiohead - OK Computer (1997)

OK Computer, um disco fundamental
[Por Tiago Agostini do blog Balada do Louco para o site Scream & Yell]

Direto ao ponto: “Ok Computer” é o disco fundamental na trajetória e discografia do Radiohead. É o rito de passagem de uma banda de relativo sucesso e boas composições para a banda mais influente e importante do mundo desde então. É o disco que inicia o culto ao quinteto e dá uma imensa carta branca nas mãos de Thom Yorke e seus companheiros para fazer o que bem entenderem com a indústria. Porque, por mais que “Pablo Honey” tivesse uma grande música (“Creep”) e “The Bends” fosse um apanhado de lindas canções dolorosamente melódicas, a banda até então não tinha ousado e colocado uma assinatura própria em seu som. E, óbvio, foi a evolução de “Ok Computer” que conquistou a devoção de milhões de fãs e alçou a banda ao posto de salvação do rock, transformando Yorke (a contra-gosto) em líder e porta-voz de uma geração.

Sonoramente o disco faz uma releitura tanto do psicodelismo quanto do progressivo, limando os excessos de cada gênero e acrescentando as doses de melancolia tão presentes nos discos anteriores da banda. Mas, ao contrário dos antecessores, mais calcados na harmonia das músicas como um todo, “Ok Computer” apresenta uma preocupação imensa com os detalhes, com os timbres, com as texturas, com os pequenos riffs e solos que pontuam cada verso e estrofe. Suas músicas são mais do que apenas uma base melódica. Elas são como peças de um quebra-cabeça sonoro cuidadosamente estruturado. Seja nos momentos mais densos, como “Exit Music (For A Film)”, “Lucky” e “Climbing Up The Walls”, nos momentos mais vibrantes de “Airbag” e “Paranoid Android”, no britpop de “Electioneering”, ou no lirismo de “Let Down” e “No Surprises”, a banda vai acrescentando um a um os acordes, as notas, as mudanças, os climas, sem se preocupar com as fórmulas básicas da música pop. Basta dizer que é um disco quase sem refrões.

Olhado com a distância do tempo, “Ok Computer” se apresenta como o retrato de toda uma geração. É como uma ópera-rock que versa sobre a vida moderna, uma crônica em preto e branco do século 21 e principalmente do pós-11 de setembro (não à toa, Thom Yorke sempre foi tratado como visionário). Traz no amargor e na voz sofrida do vocalista a carga de uma era em que as pessoas cada vez mais se isolam de tudo e criam barreiras ao seu redor. É uma época em que a convivência fica cada vez mais distante e impessoal. O egoísmo e a solidão estão presentes o tempo inteiro nos versos cínicos do cantor. Se “The Bends” era um disco basicamente sobre as relações humanas (majoritariamente românticas), “Ok Computer” é um disco sobre o conflito do homem consigo mesmo, um auto-retrato da angústia tão característica do vocalista – e que o assolaria como nunca após o sucesso estrondoso do álbum.

Como retrato de nossa era, “Ok Computer” diagnostica e radiografa perfeitamente os tempos do “politicamente correto”. Primeiro em “Karma Police” e sua ameaça constante de que “isso é o que você leva, quando mexe conosco”. Mas nada como “Fitter, Happier” para explicar a monotonia e mesmice em que tantas pessoas tentam transformar o seu, o meu, o nosso mundo. Esteja em forma, trabalhe bastante, não beba em excesso, coma de forma correta, conviva melhor com as pessoas. Parece o discurso da abertura de “Trainspotting”, um manual de regras simples para a felicidade. De nada adianta, porém, pois esse alívio momentâneo é destruído com força pelo pessimismo assolador de “No Surprises”, um dos melhores retratos do que uma vida com regras pré-estabelecidas pode causar, e que foi traduzido de forma exuberante em seu clipe, em que o vocalista é “afogado” em um aquário enquanto canta: “No alarms, no surprises”. É assim que vale a pena viver, sem ter nenhum tipo de novidade?

No entanto, sem dúvida alguma, a música que melhor expressa o disco como uma unidade é “Paranoid Android” – não por acaso a melhor música da banda. Começa com Yorke tentando espantar seus fantasmas internos enquanto os riffs de guitarra entrelaçados e a linha de baixo circular hipnotizam. O vocalista vai destilando sua ironia e expurgando seus demônios enquanto a canção cresce, até explodir no solo nervoso, rápido, urgente de Jonny Greenwood. De repente tudo acalma e um coro angelical começa a clamar pela chuva, uma pretensa redenção, que chega aos poucos, mas muito mais delicada do que em “Magnólia”. Para terminar a possível lavagem da alma, nada melhor do que uma lógica religiosa máxima transbordando cinismo. “Deus ama seus filhos, Deus ama seus filhos”. É necessário repetir muito para acreditar e não ficar louco neste mundo. “Ok Computer” é, enfim, desde seu título, uma rendição aos tempos modernos. Não há como escapar do que se tornou a nossa época.

Alçada ao posto de melhor banda do mundo, o Radiohead teve que lidar com uma fama que nunca almejou. Para isso, o grupo criou uma base sólida em si mesmo e resolveu traçar seu próprio caminho, com cada passo milimetricamente calculado. O que aconteceu depois disso é história, que culmina com o lançamento de “In Rainbows” em 2007, o álbum que colocou abaixo todo o modelo de indústria musical como a conhecíamos. Mas nada disso seria possível se, 10 anos antes, a banda não tivesse arrebatado uma multidão de fãs com “Ok Computer”. Um disco sublime do primeiro ao último acorde, uma verdadeira obra de arte atemporal capaz de ser reanalisada e redescoberta por novos ângulos com o passar dos anos. O mundo mudou nesse tempo, e só o Radiohead parece ter percebido isso… dez anos atrás.

Radiohead
OK Computer
(1997)

1. Airbag
2. Paranoid Android
3. Subterranean Homesick Alien
4. Exit Music (For A Film)
5. Let Down
6. Karma Police
7. Fitter Happier
8. Electioneering
9. Climbing Up The Walls
10. No Surprises
11. Lucky
12. The Tourist

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Radiohead - The Bends (1995)

The Bends, o melhor do Radiohead
[Por Renata Honorato do blog Game Girl para o site Scream & Yell]

Quando o “The Bends” foi lançado, em março de 1995 no Reino Unido e um mês depois nos Estados Unidos, esta escriba que vos fala tinha apenas 13 anos. Você vai pensar: “E quem essa pirralha pensa que é para dar voz àqueles que julgam ‘The Bends’ o melhor álbum do Radiohead?”. E então eu respondo humildemente: “Alguém que ainda sente um aperto no peito ao ouvir ‘Don’t leave me high. Don’t leave me dry’, como se o refrão, e seu agudo característico ‘à la Thom Yorke’, fosse um grito adolescente de um adulto que tem medo de crescer”.

Piegas? Não para o Radiohead em sua primeira obra realmente prima. Maduros, sem medo da popularidade que perseguiu “Creep”, no justo “Pablo Honey”, o quinteto britânico mostrou em seu segundo álbum toda a personalidade que mais tarde seria “marca registrada” do grupo.

Minha história com o “The Bends” aconteceu muitos anos após o seu lançamento, justamente durante uma tarde de sábado qualquer em que gastava minhas horas assistindo a um DVD do que considero um dos melhores programas de TV de todos os tempos: o Jools Holland. Em uma apresentação datada de 27 de maio de 1995, o Radiohead, que ainda carregava consigo uma postura de uma banda iniciante, cheia de paixão e excitação, e liderada por um Thom Yorke ainda loiro, tomava minha atenção tocando a música que, não à toa, dá nome ao disco. Jonny Greenwood fazia nascer de sua guitarra riffs ainda inéditos para mim, uma garota de 20 anos que ainda frequentava a Galeria do Rock na esperança de conseguir toda e qualquer parafernália do Descendents. Sua guitarra, uma das características mais pertinentes do álbum, trouxe-me a essência multilateral do rock’n'roll de um jeito novo, diferente do que tinha aprendido com punk e com o hardcore. Aconteceu. Simples assim.

Foi esse amor à primeira vista que, provavelmente, colaborou para que o meu PlayStation 2 não conseguisse mais adiantar o DVD do Jools Holland até a faixa “The Bends”. Na época, uma pobre estagiária no sentido mais literal da palavra, o videogame também fazia a vez de DVD player. E foi assim, entre trancos e barrancos, que consegui uma cópia do álbum.

O “The Bends”, por incrível que pareça, não foi o meu primeiro CD do Radiohead. O primeiro álbum da banda britânica que comprei foi o “I Might Be Wrong - Live Recordings”, que, evidentemente, não conquistou muito a minha simpatia. Eu ainda não sabia que o Radiohead é o tipo de banda que precisa ser degustada devagar, fase por fase, de cabeça aberta.

É difícil dizer qual a melhor faixa de “The Bends”. Ainda hoje o pessimismo de “Bullet Proof…I Wish I Was” e o final de sua primeira estrofe “everyday, every hour wish that I was bullet proof” mexem comigo. Claro que não dá para, simplesmente, ignorar a “Fake Plastics Tree”, principalmente depois que a DM9, de olho no bonde do sucesso onde o Radiohead tinha lugar reservado na janelinha, produziu o comercial cujo protagonista era o Carlinhos. Você lembra, certo? Okay, Carlos Manga Júnior, diretor do vídeo, merece os créditos; o trabalho ficou à altura da poesia cantada por Thom Yorke.

Os altos e baixos são características padrão do álbum. Se em “High and Dry” a súplica é por um “não me deixe mal, me deixe sozinho”, em “Just” o acorde limpo dá lugar a uma guitarra suja, agressiva, e a um refrão sem frescura (você fez isso para você mesmo, você fez, e isso é o que realmente dói). Foi nessa canção, e na guitarra de Greenwood, que comecei a perceber o grande potencial do Radiohead que, anos mais tarde, me levaria a uma busca incansável, através do Atlântico, às margens do Tâmisa.

Não é contraditório dizer que o “The Bends” foi o grande responsável em elevar o Radiohead ao patamar de “big band”. Bem produzido, consistente, maduro e sincero, o disco é um misto perfeito entre a jovialidade da banda tão presente em “Pablo Honey” e os pulsos fortes, ainda mais marcantes em “OK Computer”, lançado em 1997.

E se restava alguma dúvida quanto à qualidade incontestável do álbum, os três minutos de “Just” (a 12º música do show que vi em Londres), o coração acelerado e as lágrimas que ameaçavam cair naquele 24 de junho provaram o que lá dentro eu já sabia: “O ‘The Bends’ é e sempre será o melhor álbum do Radiohead”.

Radiohead
The Bends
(1995)

1. Planet Telex
2. The Bends
3. High And Dry
4. Fake Plastic Trees
5. Bones
6. (Nice Dream)
7. Just
8. My Iron Lung
9. Bullet Proof ... I Wish I Was
10. Black Star
11. Sulk
12. Street Spirit (Fade Out)

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Radiohead: 15 Step (feat. USC Marching Band) from the Grammys [VIDEO/MP3]

Radiohead na festa do Grammy no dia 2 de fevereiro de 2009, tocando 15 Step, acompanhado pela banda de fanfarra USC Marching Band. Muito bom.


DOWNLOAD MP3: Radiohead - 15 Step (feat. USC Marching Band) from the Grammys

DOWNLOAD VIDEO/MP4: Radiohead - 15 Step (feat. USC Marching Band) from the Grammys

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