Radiohead no Brasil

Como vão ser os shows do Radiohead
[Texto e fotos por Marcelo Costa, jornalista e editor do Scream & Yell]

Berlim, 08 de agosto de 2008. Três dias antes, o Radiohead havia tocado na terceira noite do Rock Werchter, na Bélgica, um festival que ainda contou com R.E.M., Neil Young, Lenny Kravitz e Beck (entre muitos outros). O público ficou dividido. Muita gente achou o show frio e o repertório pouco convidativo. Em um dos raríssimos momentos em que Thom Yorke se dirigiu à platéia, o vocalista falou: “É uma honra pisar no mesmo palco em que Neil Young tocou”. Só. Foram vinte e duas músicas, apenas um bis e nada de “Creep”. Muita gente deixou o local preferindo a apresentação do Sigur Rós (que tocou antes) ao Radiohead.

Corte para o trem em Berlim. Minutos após deixar a estação que atende ao aeroporto de Schönefeld, um homem grisalho aparentando uns 45 anos sentado no último banco do vagão, de jaqueta de couro e com uma garrafa de cerveja na mão (e são só 9h), interpela três garotos de quase vinte anos, primeiro em alemão, depois em inglês. “De onde vocês são?”. Um dos rapazes responde: “De Manchester, na Inglaterra. Viemos ver o Radiohead”, entrega dizendo mais do que lhe foi perguntado. O homem se interessa: “O Radiohead vai tocar aqui? Em Berlim? Putz, sabe a turnê do “The Bends”? Eu vi sete shows!”…

Berlim foi a vigésima oitava parada da turnê “In Rainbows”. Os shows no Brasil – primeiros da banda em mais de 15 anos – vão ser os de número 51 e 52 da tour, e a banda continua fiel ao seu lado difícil. Em 50 shows, hits de primeira hora como “Anyone Can Play Guitar” do álbum “Pablo Honey”, e “Black Star” do disco “The Bends” (aquele que o alemão é fã) não foram tocados sequer uma vez. Mas “Creep”, inédita até então na turnê, apareceu no segundo show do México, o que pode prometer surpresas para o repertório brasileiro. Em compensação, canções novas como “Weird Fishes/Arpeggi”, “Bodysnatchers”, “All I Need”, “Reckoner”, “Nude”, “Videotape” e “15 Step” foram tocadas todas as noites. E apenas duas canções por show são de “Ok Computer”.

Na capital alemã, o show acontece no meio do grande parque Wuhlheide, na periferia da cidade, mesmo local em que a banda tocara no dia 11 de setembro de 2001, no mesmo horário em que aviões colidiam com torres nos Estados Unidos. Parece especial para Thom Yorke tocar ali. Quanto mais se entra na mata, mais ela se fecha. Em certo momento, abre-se uma clareira, e o que surge carrega semelhanças com um antigo teatro romano. O palco está montado no fundo, arquibancadas de metal e madeira cercam quase todo o lugar, e gente de todo o mundo conversa numa confusão de línguas. Dezenas de barracas de bebidas, comidas e souvenirs lotam as redondezas e uma dupla de DJs faz algo que, provavelmente, só os alemães entendem até o finzinho da tarde.

A rotina segue: o jogo de luzes (barras de tungstênio penduradas no teto) toma sua posição, fileira por fileira, até cobrir toda a extensão do palco. Uma melodia minimalista começa a tocar enquanto os ajustes finais são dados e a banda toma seu lugar. O telão (no fundo e nas laterais), na verdade, são diversas telinhas que focam cada integrante (tal qual o clipe de “Jigsaw Falling Into Place”). “Weird Fishes/Arpeggi” abriu o show do Werchter, mas em Berlim eles preferem começar com “15 Step”, que serviu como abertura em mais de metade das apresentações da turnê. Em seguida é hora de testar os batimentos cardíacos dos fãs com uma faixa de “Ok Computer” (”Airbag”, “Lucky”, “Karma Police”, “Climbing Up The Walls” ou “Exit Music (for a film)”).

Junto com diversas possíveis faixas de “In Rainbows”, uma de “Kid A” (a sensacional “National Anthem”) e duas de “Hail To The Thief” marcam presença (quase certa) na primeira parte do show: a excelente “There There” e a sonolenta “The Gloaming”. No decorrer o grupo não facilita e da-lhe b-sides como “Bangers and Mash” e “Talk Show Host”. As canções de “The Bends” começam a dar às caras no miolo do set list: na Bélgica foi “Just”, e em Berlim, um presente especial: “Nós tocamos aqui em 11 de setembro de 2001. Espero que vocês lembrem essa canção. É para vocês”. O riff marcante de “My Iron Lung” preenche o ambiente. “Fake Plastic Trees” também pode rolar.

A parte final da noite traz faixas de “Kid A”, “Amnesiac” e “Hail To The Thief” como “Optimistic”, “Where I End and You Begin”, “Dollars & Cents”, “How To Disappear Completely”, “Pyramid Song” e um dos grandes momentos do Radiohead (e de Thom Yorke) no palco: “Idioteque”. Chegamos ao bis e “Everything In It’s Right Place”, em versão house, ou abre ou fecha. “You And Whose Army?” também costuma aparecer – e jogar um balde de água fria na audiência. Sem problema, pois “Paranoid Android” aparece para reerguer o ânimo em uma versão irretocável. “Planet Telex”, “The Bends”, a inédita “Supercollider” e “2+2=5? costumam aparecer também.

A rigor, o set list do Radiohead é fechado em 22 canções incluindo um bis. Nas duas datas do México, por exemplo, foram 25 canções em dois bis – se a banda e o público estiverem animados podem rolar até três bis. O repertório é dividido assim: de oito a dez canções de “In Rainbows”, uma de “The Bends” (pode até serem duas) três de “Ok Computer” (nunca quatro, mas quem sabe) e mais um ou dois b-sides. E todo o resto da tríade “Kid A”, “Amnesiac” e “Hail To The Thief”. O show tem momentos mágicos, mas pode muito bem trazer bocejos a quem não é muito familiar ao som do quinteto – e cansa um pouco até aqueles que conhecem as faixas mais obscuras. É uma apresentação que costuma demorar a engatar, mas nada como uma “No Surprises” para derreter corações de gelo.

As atitudes emblemáticas do Radiohead no showbusiness são levadas aos extremos no palco. Eles não tocam os hits fáceis porque não querem tocar. Ponto. Misturam faixas eletrônicas que poucos conseguem entender com cavalos de batalha de seu repertório num constante bate e assopra que procura reafirmar os dois lados distintos do grupo e que ali, naquele espaço, são eles quem mandam. Todos que admiram a banda podem se deliciar com o senso de dificuldade que o grupo de Thom Yorke parece criar em torno de si mesmo, cujo resultado mais simplista seria: eles poderiam optar por um repertório que facilmente faria de suas apresentações um momento mágico na Terra, mas preferem mostrar que o pessimismo (tema tão presente nas letras do grupo) também faz parte deste mundo.

Os fãs que amam o Radiohead cegamente vão adorar o show. Na verdade, eles já saem de casa adorando (em 99% dos casos com qualquer artista). Já aqueles que admiram a banda por suas particularidades talvez torçam o nariz, mas devem perceber que o show do Radiohead é mais teórico que prático. Diz mais sobre o show o que não acontece. E afinal de contas, quem vai ver o Radiohead ao vivo quer mesmo sair feliz após o show? Como sorrir após cantar “Wolf At The Door”, “No Surprises” e/ou “Nude” (que diz: “Não tenha grandes idéias / Elas não vão acontecer”)? Thom Yorke cria um paradoxo interessante para os tempos modernos. Ele entrega sua tristeza e seu pessimismo para a felicidade de uma multidão, mas quer deixar claro que não faz disso um ato heróico: se você quiser, vai ser do jeito dele, e não do seu. Poucos artistas – poucos, muito poucos – no mundo conseguem isso.

Para os shows do Brasil, muita expectativa sobre como a banda irá se portar frente ao público brasileiro pela primeira vez. A chance do grupo ceder e tocar mais canções “fáceis” que o normal é mínima, embora o repertório das datas no México abram um precedente, o que quer dizer que as apresentações de sexta, no Rio de Janeiro, e do domingo, em São Paulo, possam ter surpresas. O roteiro dos 50 shows anteriores desta turnê deve ser seguido à risca, mas e se a banda estiver mais à vontade, se o clima estiver bom, se o público colaborar, se o tempo ajudar, se Jorge Ben aparecer, o que pode acontecer com o Radiohead aqui? Lembre-se: é um jejum de mais de 15 anos que será quebrado – para a banda e para o público. Alguém assopra o ouvido dizendo que vão ser duas noites especiais. Será? O que você espera do show, caro leitor?

Veja quais foram as 56 canções tocadas pelo Radiohead nas 50 datas da “In Rainbows Tour 2008/2009?. Entre parênteses, o número de vezes que eles tocaram cada música.

» All I Need (50)
» Bodysnatchers (50)
» Reckoner (50)
» Nude (50)
» Weird Fishes/Arpeggi (50)
» Videotape (50)
» 15 Step (50)
» There There (49)
» Everything In Its Right Place (49)
» Idioteque (48)
» Faust Arp (45)
» Jigsaw Falling Into Place (45)
» The Gloaming (44)
» National Anthem (41)
» House of Cards (36)
» Paranoid Android (34)
» Optimistic (33)
» Pyramid Song (31)
» Bangers and Mash (27)
» You And Whose Army? (27)
» Lucky (26)
» Airbag (23)
» Just (23)
» Exit Music (for a film) (22)
» How To Disappear Completely (19)
» Street Spirit (fade out) (19)
» Karma Police (18)
» Climbing Up The Walls (18)
» Dollars & Cents (16)
» Where I End and You Begin (15)
» Planet Telex (15)
» No Surprises (15)
» Morning Bell (14)
» Fake Plastic Trees (14)
» Talk Show Host (13)
» The Bends (12)
» My Iron Lung (11)
» Myxomatosis (10)
» 2+2=5 (10)
» Wolf at the Door (9)
» Cymbal Rush (9)
» Go Slowly (8)
» Like Spinning Plates (8)
» Kid A (4)
» Supercollider (4)
» Hunting Bears (4)
» The Tourist (3)
» Knives Out (2)
» Bullet Proof.. I Wish I Was (1)
» Sail To The Moon (1)
» I Might Be Wrong (1)
» In Limbo (1)
» Tell Me Why (1)
» True Love Waits (1)
» Creep (1)
» Fog (1)


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Ed O'Brien em entrevista ao Fantástico


Guitarrista do Radiohead já esteve no Brasil
Revelação foi feita em entrevista exclusiva.

O repórter Álvaro Pereira Júnior conversou com exclusividade com o guitarrista do Radiohead Ed O'Brien, na Cidade do México, e descobriu que apesar de a banda nunca ter tocado no Brasil, conhece muito bem o país e a música que se faz aqui.

Dizem que eles não gostam de gravar discos. Não gostam de viajar o mundo tocando. Não suportam dar entrevistas. Mas eles formam uma das bandas mais importantes da história: o Radiohead.

Mais do que uma banda, o Radiohead é um enigma. Como cinco caras tão sem vocação para astros do rock conseguem fazer tanto sucesso? O Fantástico foi ao México para falar com o guitarrista, Ed O'Brien, para saber se eles são mesmo tão estranhos e acabamos descobrindo conexões inesperadas entre o Radiohead e o Brasil.

Com 1,95 metros de pura simpatia, ele é o oposto da imagem cultivada pelo Radiohead. O'Brien revela que viaja com frequência ao Brasil desde 2002.

"Já estive em Salvador, no Rio, em Paraty, São Sebastião", enumera o guitarrista.

Ele conta que um de seus dois filhos se chama justamente Salvador. E que
a paixão pelo Brasil começou pela música.

"Na época do nosso disco ‘OK Computer’, eu estava obcecado por bossa nova. João Gilberto, Tom Jobim... Eles falam muito em saudade e ‘OK Computer’ é um disco sobre isso, sobre não estar satisfeito, sobre querer outra coisa além do que se tem", explica O’Brien.

A conexão com a bossa nova é só nos temas ou também musical?

"Bem que eu queria que fosse, mas somos apenas cinco branquelos da Inglaterra. O clima é outro. Nosso jeito de tocar é muito mais tenso", diz ele.

Ed menciona mais duas paixões brasileiras: Jorge Ben, que ele chama de “O Cara”, e a banda paulistana Ira!, que se separou ano passado.

"Comprei o último disco deles e adorei", conta o guitarrista.

Ed é o mais roqueiro da banda. Pergunto como isso se resolve dentro do Radiohead, já que o líder e cantor, Thom Yorke, tem outras preferências, como música eletrônica.

O guitarrista explica que o Radiohead é a soma de cinco pessoas com interesses diversos, mas que sempre chegam a um consenso. E dá o exemplo daquela que talvez seja a canção mais conhecida do grupo, "Fake plastic trees".

"A gente tinha ido a um show do cantor Jeff Buckley. O Thom saiu emocionado e compôs uma pequena parte vocal. Aí cada um trouxe alguma idéia e o resultado foi esse", lembra O’Brien.

Era o início de uma grande escalada rumo à fama. Quando saiu o disco seguinte, "OK Computer", em 1997, críticos e fãs ficaram de joelhos. Mas o Radiohead entrou em crise por fazer sucesso demais.

"Começaram a dizer que nós éramos a banda mais importante, que tínhamos tomado o lugar do U2. Foi demais para a gente. Também nos envolvemos na parte dos negócios e foi ruim. Entrevistas, promoções sem fim. Quase acabamos", revela.

A duras penas, se mantiveram juntos. Em 2007, lançaram o álbum mais recente, "In rainbows". Com uma novidade: saiu primeiro na internet.

A banda colocava todas as faixas e a pessoa baixava todas as faixas e decidia quanto pagar. Podia, inclusive, não pagar nada.

Ed revela que os italianos foram os mais generosos: 79% pagaram alguma coisa. Já os brasileiros... Só 30% pagaram. E ele ainda brinca.

"Mas eu sempre vou perdoar os brasileiros."

Como se vê, o Radiohead tem hoje um perfil mais tranquilo, diferente da imagem antiga de banda torturada e sem humor. É esse Radiohead que toca no Rio, na próxima sexta-feira, e em São Paulo, domingo que vem.

E Ed O'Brien conta: depois da turnê, vai viajar de carro pelo sul da Bahia, com a mulher e os dois filhinhos. Combinado, então: a gente se cruza no Brasil.

Créditos: Revista do Fantástico

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Radiohead - In Rainbows (2007)

In Rainbows, o álbum da década
[Por Alexandre Matias do blog Trabalho Sujo para o site Scream & Yell]

Vamos falar a verdade – o Radiohead só passou a existir a partir do segundo semestre de 1997, quando OK Computer definiu uma fronteira ainda inconsciente. Ali terminava a carreira de uma banda do terceiro escalão da geração britpop, que se esforçava para suprir a lacuna deixada pelo U2 à medida em que Bono e companhia mergulhavam na dance music. Mesmo com algumas boas faixas em The Bends, o Radiohead era menos do que nota de rodapé na história do rock, fadado a ser lembrado mais por “Creep” do que por faixas infinitamente superiores, como “High and Dry”, “Fake Plastic Trees” ou “Just”. Até que, em um disco, mudaram completamente a abordagem de sua música, sua própria noção de importância e a consciência de perspectiva histórica. OK Computer era uma coleção de faixas que soavam tão inquietas quanto clássicos do rock, devendo tanto ao stress existencialista da geração X e à paranóia consumista dos anos 90 quanto aos discos solo dos Beatles e os discos certos do rock progressivo. E toda poeira retrô que pairava sobre as canções do último álbum da história do rock soa setentista ao mesmo tempo em que flutua pós-moderna, como se letra e música fossem atiradas à ausência de gravidade e humanidade de uma etapa cinzenta a seguir. Imagine o estado da banda ao conduzir versões com 14 minutos de uma “Paranoid Android” ainda não gravada para o público da primeira turnê americana de Alanis Morrissette, de quem foram o show de abertura.

Mal sabíamos como aquele OK Computer seria definitivo: surrupiada de Douglas Adams, a frase funcionava como um epitáfio para o mundo pop como o conhecíamos, de artistas inatingíveis, canções que soam como hinos, discos para serem ouvidos de cabo a rabo, a indústria fonográfica em particular e o mercado de entretenimento como um todo. Tudo começaria a ruir naquele semestre. Ao mesmo tempo em que as letras da banda pareciam concretizar-se, novas estradas digitais eram erguidas. A ausência de resistência do título não era apenas um último suspiro, uma trégua final – também anunciava o início de novas regras no jogo do pop. Afinal, o computador não era apenas a caixa cinzenta de plástico que passaria a nos conectar através de uma rede neurológica planetária artificial, mas também cada um de seus usuários. Ao ceder ao computador, a banda estava encerrando também o ciclo de relação da banda com o ouvinte passivo, afinal, a partir dali ele também inseriria dados na equação do sucesso de determinado artista que iam além da simples compra de ingressos ou de discos.

O próprio Radiohead foi cobaia desta nova realidade ao ver o disco posterior a OK Computer aparecer online antes de ter sido lançado. Três anos após ter subido degraus consideráveis em importância no mundo pop graças a um único disco, o Radiohead armava a contagem regressiva para o lançamento de um disco que a indústria esperava ser campeão de vendas com notícias que diziam que o disco seria hermético e experimental. E a expectativa aumentava quando gravações com as novas faixas tocadas em shows começaram a aparecer na internet –que culminou com o próprio vazamento de Kid A quase dois meses antes de seu lançamento oficial. Aquela novidade era uma prática que já vinha acontecendo com artistas menores, mas, com a chegada do Radiohead ao primeiro escalão do pop, abriu as possibilidades de ver a internet como vilã, ao minar as possibilidades de um artista de grande porte vender ainda mais discos. O resultado foi um esgar inicial à complexidade e densidade das canções, avessas ao classicismo de OK Computer, que rendeu notícias anunciando a morte prematura do disco. Mas foi o tempo necessário para o público digerir o álbum e seu conceito antipop para que Kid A, contrariando todas expectativas, se tornasse um dos discos mais vendidos do ano 2000 no mundo inteiro.

Com Kid A, o grupo virou as costas para o que havia pregado em OK Computer e partiu para o que mais havia de vanguarda na época. Lembro da Wire, bíblia da música experimental, estampar Thom Yorke em sua capa com um misto de admiração e culpa, pois a banda de rock mais popular do planeta tinha levado para seu aguardado disco parte do universo de exploração e experimentos endeusados pela revista. A música mais “fácil” de Kid A não ajudava muito, ao criar um neologismo que fundia idiotice com discothéque, numa crítica nada sutil à pista de dança. Pesado e de poucos amigos, Kid A é um salto no escuro tão radical quanto os álbuns negros do Prince e do Metallica – embora não tenha errado tanto quanto o primeiro nem acertado tanto quanto o último. Em seu quarto disco, o Radiohead tinha deixado de ser uma banda pop aspirando o Olimpo para assumir a expressão de uma esfinge, uma Mona Lisa de olhos tortos que ri de/com/para algo – e você não sabe do quê.

Os discos seguintes continuaram a trilha, abrindo-a para os lados. Amnesiac é o lado B de Kid A e o disco ao vivo I Might Be Wrong compila as músicas dos discos anteriores que poderiam ter feito o sucessor de OK Computer um disco palatável – mas desimportante por ser muito parecido. Com Hail to the Thief, eles ampliam ainda mais suas discussões ao assumir posições políticas ao mesmo tempo em que costuram o experimentalismo com sua maior qualidade, as canções.

Sete anos depois do abismo Kid A, o grupo dá um passo ainda mais ousado - talvez até mesmo que o de OK Computer. Tudo estaria resolvido em menos de um mês. Em setembro de 2007, pouco se falava sobre o próximo disco do Radiohead e no mês seguinte a banda dominava o imaginário mundial. Começou com o mínimo de barulho num site chamado www.radiohead7lp.com, que computava uma contagem regressiva para alguma coisa. Sim, era o sétimo disco do Radiohead que estava para ser lançado, mas logo a própria banda vinha em seu site para dizer que não tinha nada a ver com aquela contagem regressiva. Em alguns posts anteriores, o grupo apenas lançava mensagens enigmáticas, criptografadas – uma delas foi traduzida como sendo MARCH WAX, o que levava a crer que o próximo disco da banda sairia apenas em vinil, seis meses depois.

Ou não. Eis que o tal cronômetro chegou ao zero, revelando a frase - THE MOST GIGANTIC LYING HOAX OF ALL TIME (O MAIS GIGANTE E MENTIROSO BOATO DE TODOS OS TEMPOS, tudo em caixa alta mesmo) linkada a um vídeo do YouTube, que nos fazia cair no clipe de “Never Gonna Give You Up”, de Rick Astley, num primeiríssimo Rick Roll’d em larga escala. Ao mesmo tempo, o próprio site da banda revelava a seguinte mensagem:

“Hello everyone.
Well, the new album is finished, and it’s coming out in 10 days;
We’ve called it In Rainbows.
Love from us all.
Jonny”

Dali você era redirecionado para o site InRainbows.com, que escreveria uma nova página na história do capitalismo. No momento em que você optava por comprar o álbum, o site lhe oferecia a opção de escolher o preço que queria pagar. Não era simples altruísmo: assim, o que o Radiohead admitia era o fato de que, uma vez feito, o disco já estava lançado – pagaria quem se dispusesse a faze-lo. Mais do que ter o preço avaliado pelo comprador – o que é um conceito inovador em si –, In Rainbows foi dado de graça. Quem quisesse, poderia pagar pela comodidade de receber, além das dez faixas disponibilizadas em MP3, um pacote com o disco em vinil em edição especial, que ainda incluía um disco extra. Calibrando suas faixas com um bitrate específico (160 – ao contrário dos 320, 192 ou 128 que são usados como padrões), eles logo dominavam a rede com o mesmo disco em milhões de HDs diferentes. Ao contrário do vazamento involuntário, que pode pular uma das etapas do processo de produção do disco e vir com algo menos (títulos definitivos, masterização, ordem das músicas, etc.), In Rainbows chegou inteiro e ao mesmo tempo para todo seu público – e exatamente como queriam seus autores. Em um fim de semana, o sétimo disco do Radiohead deixava de ser uma conspiração decodificada por fãs para se tornar um novo paradigma para a cultura pop.

In Rainbows ainda tem outro mérito – o de mostrar que download gratuito não pressupõe pirataria, como desinformava a guerra de nervos promovida pela indústria do disco no início da década, quando insistia em jogar na internet a culpa da má gestão de seus próprios negócios nos anos 90 e trata-la como vilã. Assim, se uma incauta geração inteira baixava MP3 como se não houvesse amanhã, outra, precavida, comprava seus MP3 com medo de prejudicar seus artistas favoritos. O Radiohead deu a esta última a chance de baixar não apenas uma música, mas um disco inteiro, de um artista estabelecido – de graça, sem dor.

O feito transformou o Radiohead em novo paradigma digital. Não apenas o universo musical, mas todos conscientes do papel da internet ouviram falar da nova estratégia da banda, que em uma semana, teve mais de um milhão de downloads só do site oficial, dominou a parada da Last.fm e apresentou-se para gente que nunca tinha sequer parado para ouvir o grupo. Além de impulsionar uma safra de artistas a adotar o formato.

Há quem desmereça o feito como mero recurso técnico feito para distrair a atenção da essência artística – reação usada para esvaziar os efeitos de Guerra nas Estrelas ou de Dark Side of the Moon, a cor em O Mágico de Oz, a pompa de Sgt. Pepper’s, o timbre de João Gilberto, a falta de respostas em Lost ou a filosofia de araque em Matrix. Os detratores do pop desvinculam tais elementos de suas obras originais de forma a torná-los ridículos para quem acompanha o fenômeno de fora, sem perceber que é justamente esse o elemento responsável por ampliar o público para longe do nicho, rumo às massas. E por mais óbvio que pareça ter sido o salto dado por In Rainbows, ele foi crucial, pois quebrou o parâmetro linear de produção da era analógica, que inevitavelmente faria o disco ser lançado mesmo em março de 2008, caso a banda entregasse o disco à gravadora, e não ao público. A sensação de desnorteamento foi tamanha, que havia quem considerasse o lançamento digital do disco um híbrido improvável batizado de “vazamento oficial” – sem perceber a contradição no termo. Como provocação, a banda ainda marcou o lançamento oficial do CD para o primeiro dia de 2008 – como se perguntasse a quem falou em “vazamento oficial” de quando é que eles vão datar o CD, 2007 ou 2008? Endossando a provocação, o Radiohead ainda fechou um acordo com a CurrenTV de Al Gore para transmitir um show gravado no estúdio da banda no último dia de 2007. Poucas horas antes do disco chegar às prateleiras das lojas do mundo, milhares de fãs da banda em todo o planeta cantavam todas as músicas de um disco que ainda não existira fisicamente, apenas de forma digital.

Mas o fato é que todo esse rebuliço não seria tão importante caso In Rainbows não fosse bom. Tanto que logo depois o Nine Inch Nails lançou um disco de forma ainda mais ousada – tanto em termos mercadológicos quanto em se tratando de narrativa – e ninguém mal ouviu falar do disco. Por que é ruim? Não, afinal de contas, o trabalho de Trent Reznor é sério. Mas por que não se conecta de forma tão intensa com a própria época como o do Radiohead.

E chamar In Rainbows de um bom disco é exagerar na modéstia. In Rainbows é o melhor álbum dos anos 00.

Pois todo experimentalismo da virada do milênio já havia sido digerido pela própria banda. Expurgando a possibilidade de se repetir ao cogitar discos de vanguarda em vez de álbuns de rock, o Radiohead aos poucos abandona a experimentação e o improviso, rumo ao artesanato cancioneiro. As texturas e timbres alienígenas de Kid A/Amnesiac surgem nas entrelinhas, nos arranjos, nos detalhes de In Rainbows – que é, essencialmente, uma continuação de OK Computer. Há uma linha de raciocínio que inclusive busca ligar ambos discos e fãs do grupo são instigados a procurar sentido em coincidências como o fato dos dois discos serem batizados com expressões com duas palavras, uma com duas letras e outra com oito. Já cogitaram até mesmo que a audição entrelaçada das faixas dos dois discos abre uma nova dimensão entre suas canções – mas o efeito é mais lúdico do que racional e poderia funcionar com quaisquer faixas dos últimos discos da banda (sinal da coesão de sua sonoridade). Mas há ainda quem veja coincidências nos detalhes – e há uma ênfase no número 10 que sugere alguma referência à linguagem binária no Código Radiohead. Além dos discos terem 10 faixas cada (OK Computer tem onze, sendo que uma, “Fitter Happier”, é um interlúdio), OK Computer e In Rainbows foram lançados com dez anos de diferença entre si – e o último lançado exatamente no dia 10 de outubro (o mês 10) de 2007. E mais: o fato do título dos discos começarem com as letras “O” e “I” também seria outro aceno ao código binário. “Down is the New Up” – parece que tem mesmo algo aí.

Mas, principalmente, há a música – e ela se mostra a princípio hermética. In Rainbows abre fechando-se com uma rajada de beats tortos, primos da gravadora Warp, que tanto bateu no grupo no início da década. “Como posso terminar onde comecei?”, pergunta-se Yorke, sem se preocupar em nos dar as boas vindas. “15 Step” aparentemente nos guia para outro beco sem saída experimental. Mas aos 40 segundos, deixa a guitarra jazzista de Jonny Greenwood superpor-se à percussão esquizofrênica – e a de Ed O’Brien logo surge funcionando como segunda voz, junto com uma sinuosa linha de baixo e uma melodia direta e reta, oposta a seus versos de abertura. “Tudo estava bem/ O que aconteceu? O gato comeu sua língua?”, pergunta o vocalista sobre a mudez espiritual de nosso tempo. “Etc. etc./ Fatos ou o que for”. O clima apático e tenso parece dissolver-se numa melancolia pós-milênio que filtra todo o disco – um sentimento que é um vazio existencialista parente da apatia cantada por Kurt Cobain e de um blues robô, que une Kraftwerk, Daft Punk, Aphex Twin e Brian Eno numa espécie de eletrônica autoral, em que o ritmo tem mais sentido do que sensação. Mas se essa sensação oca era a mesma que causava desespero e náusea em OK Computer, em In Rainbows ela parece menos caótica e mais precisa – como se tivesse completado um ciclo (os “15 passos” seriam um programa?).

“Bodysnatchers” segue dura e rock, com seu riff distorcido conduzindo o ritmo como um cavalo selvagem, acompanhado em seguida por toda a banda. Esta alterna entre o pique inicial (cuja letra revela seu protagonista catatônico – “pisque seus olhos/ Uma vez para ‘sim’/ Duas vezes para ‘não’/ Eu não faço idéia do que você esteja falando”) e uma clareira de ritmo, quase zen, quando uma guitarra saída de um disco do Cure ou um teclado fantasmagórico sublinha os gemidos de Yorke. “A luz apagou pra você?/ Pra mim, apagou/ É o século 21”, canta numa performance, que vai do grunhidos ao sussurro, sua voz tão solta na parte final da canção como qualquer outro instrumento da banda, tão importante à formação sonora quanto as três guitarras, os teclados ou a cozinha decidida – e é ela quem encerra a faixa repetindo “eles estão vindo!”, como se impressionada com a coesão e força da usina de som que lidera, logo depois de concluir “eu estou vivo”.

“Nude”, conhecida pelos fãs de shows com outro título, “Big Ideas”, começa superpondo vocais, samples de corais, cordas sintéticas para criar um clima de catedral, que é logo esvaziado – deixando apenas Yorke com o baixo de Colin Greenwood e a bateria de Phil Selway, criando uma atmosfera bucólica e tranqüila (embora a letra cante que por mais que você se apronte,“sempre algo estará faltando”), em que as duas guitarras entram como se fossem uma só, alternando detalhes dedilhados como nas baladas mais hipnóticas do Velvet Underground ou as canções mais pastoris do Pink Floyd. E logo essa estrutura instrumental serve como base para as mesmas cordas, samples e vocais que abriram a canção voltarem – e quando Yorke deixa sua voz soar sem letra, há um minuto do fim, estamos ouvindo um dos trechos musicais mais bonitos de nossa época, quase uma revelação sentimental, sentimentos que só a música consegue traduzir – palavras falham.

O disco retoma à contagem de tempo antes da bateria assumir o ritmo incessante kraut que funciona como tela em branco para três guitarras superporem dedilhados, completando-se em “Weird Fishes/Arpeggi”. Não consigo dissociar não apenas essa faixa, mas diversos momentos de In Rainbows, da descoberta do violão feita pelo Legião Urbana em seu segundo disco – até porque a própria trajetória do Radiohead ultrapassa um arquétipo vivido pelo grupo de Renato Russo, que é quando uma banda guitarreira descobre a eficácia da harmonia em detrimento do ritmo e a sutileza do instrumento acústico em contraste à histeria elétrica. “Weird Fishes” é parente bastarda de “Andréa Doria” e “Plantas Debaixo do Aquário”, as mesmas texturas instrumentais, mesma sensação de esperança disfarçada de desespero, mesma abordagem temática do mar (Andréa Doria era o nome de um barco italiano que afundou em 1956, perto de Nova York).

De andamento quase fúnebre, “All I Need” é outra bomba-relógio – ela parece prenunciar uma música tensa e solene, quando, na verdade, é a balada mais pop que o grupo já fez; uma canção pronta para aquecer corações, escorada em um arranjo com cara de Björk: bateria minimal, piano soturno, efeitos sonoros, ecos, muitos vazios. Ela termina em “Faust Arp”, uma microcanção em que o arranjo de cordas a deixa com ar ainda mais pastoril, nickdrakeano, onde o grupo faz valer seu anglicismo.

A linda “Reckoner” é outra música que vai sendo construída lentamente entre nossos ouvidos, cada camada de instrumento sendo disposta de forma didática, nos ajudando a ouvir o que cada um faz na banda e nos explicando sentimentalmente o que é que precisa nos afeiçoar em uma canção para que ela torne-se universal – neste caso, apenas o andamento e a melodia, todo o resto é assessório. O vocal de Thom em especial deixa a aparente psicopatia de lado e atinge seu grande momento – em especial quando, na segunda parte da faixa, canta consigo mesmo e entoa, quase em segredo, o nome do disco. “House of Cards” não deixa cair – e vai pela mesma fórmula da canção anterior nos fisgando sem pensar. Desta vez o ritmo é determinado pela guitarra, que é apenas seguida pela bateria, deixando Thom Yorke ter seu outro grande momento, cantando em tom grave, oposto ao falsete de “Reckoner”. Há tanta referência – e reverência – ao folk dos anos 70 quanto à música ambient da virada do milênio, em outra canção irretocável.

“Jigsaw Falling Into Place” é o grande momento do disco, como se fosse uma “Paranoid Android” amadurecida em dez anos – as mudanças entre as faces da música são menos abruptas e suas diferentes caras soam complementares, não antagônicas. Ela aponta para uma certeza que toma conta do disco – de que estamos finalmente vendo as coisas do jeito que elas são. Caem as máscaras erguidas pela comunicação e aos poucos conseguimos ver quem é quem, como se o ataque de pânico de OK Computer fosse substituído por uma sabedoria cínica, algo Tyler Durden, um sociopata disposto a derrubar tudo por dentro – a princípio o tom é sóbrio:

“Logo que você segura minha mão
Logo que você anota o número
Logo que as bebidas chegam
Logo que eles tocam sua música favorita
A mágica desaparece”

A letra continua dissecando toda a tensão da sociedade moderna do mesmo jeito em que a banda cresce – instrumentos acústicos e vocais que cantarolam começam a ser trocados por berros, solos de guitarra e cordas dramáticas e a música ganha um volume e densidade que no início era apenas referido. A letra invade um outro país das maravilhas de Alice, de paredes que perdem forma e gatos que sorriem mas também de ruído, ritmo e câmeras de circuito fechado. “Nunca fui lá/ Só fingi que fui”, “antes que você entre em coma/ Antes que você fuja de mim”, “Pra que servem instrumentos?/ Palavras são armas de cano serrado”, Yorke nos induz ao transe dervixe inglês antes de sentenciar que o quebra-cabeças começa a fazer sentido: “As peças se encaixam/ Não há nada a ser explicado”, canta como um guru psicodélico que guia um novato em uma viagem alucinógena – mas a viagem que a banda propõe é justamente abandonar o excesso de referências que polui e superlota nossas cabeças para “desejar que o pesadelo se vá”, pois “você tem uma luz e pode senti-la”. E ele não está sendo esotérico, como dá pra perceber.

“Videotape”, devagar quase parando, encerra o disco com a melancolia de um velho VHS, Thom Yorke vê-se póstumo ainda querendo ater-se à vida que acabou de perder (“quando eu chegar às portas do céu/ Isso estará gravado em vídeo/ Mefistófeles logo abaixo/ Tentando me puxar”), nos fazendo pensar em nostalgia e como nos apegamos mais ao passado do que ao presente. Os acordes congelados ao piano são emoldurados por ruídos e texturas, sem nunca superpor-se à canção.

In Rainbows é um conjunto perfeito de 10 canções perfeitas. Elas conversam entre si exatamente como falam das sensações que todos sentimos nos dias de hoje – um medo opressor cuja natureza é indeterminada, a tensão de ser humano – animal ou racional? – na medida em que a civilização entra em colapso, uma sensação vazia que se sobrepõe ao excesso de tudo. São os mesmos sentimentos desenhados em OK Computer, o que muda é a relação da banda com eles – se no primeiro disco parecia espantar-se e cogitar o suicídio, neste percebe que todo o ruído e poluição é só a casca de uma pseudo-realidade – e que o que há por trás do excesso de informações e caos de consciência que distorce nossa rotina é muito simples, claro e fácil.

Alie isso ao fato de In Rainbows não ser um disco de inéditas. Conhecidas de seu público através de shows, todas as faixas já haviam aparecido mais de uma vez e já tinham vídeos no YouTube, letras em sites de fã e seqüências de acordes em repositórios online de canções cifradas para violão. Não era seu ineditismo que as tornava especiais em In Rainbows – mas a forma em que elas foram dispostas, sua produção, seus arranjos, o sentido que fizeram umas juntas às outras. Uma outra leva de músicas ainda podia ter se juntado à coleção inicial mas terminou como uma espécie de conteúdo extra – o segundo disco do vinil duplo vendido através do site – mas que, quis o destino, não era In Rainbows.

In Rainbows é um conceito fechado, uma declaração de princípios, um manifesto estético. Mais do que um disco que assumiu-se digital por natureza e copiável por definição, é uma coleção de canções que não apenas traduzem certas sensações que permeiam nosso dia a dia, como faz isso com estilo, bom gosto, senso de importância e perspectiva histórica. Uma obra que ainda faz valer a existência de um formato, a prova de que o fim do CD não pressupõe o fim do álbum. E, por tudo isso, é o disco mais importante da década.

Nos anos 90, o Radiohead não chegou perto deste título pois seus padrões foram estabelecidos logo no início – e OK Computer teria de competir com obras-prima como Blue Lines, Nevermind, Check Your Head, Loveless, The Chronic, Screamadelica e BloodSugarSexMagick. A década seguinte também talhou seu modus operandi de cara – e, desde o início, descartou o álbum como formato. Medidos em canções, os anos 00 esvaziaram o formato álbum de diferentes formas – de bandas que movimentam-se exclusivamente por singles (como toda a geração novo rock nascida após os Strokes) a artistas que se lançam por etapas, adicionando elementos extra à medida em que envolvem o ouvinte (pense nas carreiras de Dangermouse, Jack White, Marcelo Camelo ou Nick Cave – e suas muitas camadas de apresentação ao público). Quando o Radiohead se propôs a lançar In Rainbows como o lançou, sabia onde queria estar.

A expectativa para os shows do Radiohead no Brasil essa semana não é à toa: estamos às vésperas de assistir à maior banda do planeta hoje tocar o show da turnê do disco da década.

Radiohead
In Rainbows
(2007)

1. 15 Step
2. Bodysnatchers
3. Nude
4. Weird Fishes/Arpeggi
5. All I Need
6. Faust Arp
7. Reckoner
8. House Of Cards
9. Jigsaw Falling Into Place
10. Videotape

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Radiohead - Hail To The Thief (2003)

Hail To The Thief, a volta das guitarras
[Por Marcelo Costa, jornalista e editor do Scream & Yell]

Se o mundo não fosse um lugar tão cruel e a caça aos célebres tão intensa, “Hail To The Thief”, sexto álbum do Radiohead, seria o disco óbvio após o estrondoso sucesso do mítico “Ok Computer”. Acontece que o sucesso é uma moeda de dois lados bem definidos, e um deles cobra seu quinhão com voracidade, pois o mundo ainda não está pronto para lidar com pequenos momentos de genialidade. A vida, porém, sempre surpreende, e pressionados contra o muro, o Radiohead deu um giro de 180 graus para baixar a guarda do mundo e voltar a fazer o que realmente gosta em seu disco mais à vontade.

Thom Yorke virou celebridade com o sucesso de “Ok Computer”, e a banda quase entrou em colapso com a rotina – muitas vezes destruidora – da fama. O flagrante deste momento foi registrado no filme “Meeting People Is Easy”, retrato de uma banda se libertando do mercado fonográfico (e de si mesma), e foi amplificado com a dobradinha de discos de atmosfera eletrônica e antipop lançados na seqüência: “Kid A” (2000) e “Amnesiac” (2001). No começo de 2002, o vocalista confidenciava: “Bem, a idéia é não usar computadores no novo disco. Vamos ver quanto tempo que dura (rindo)”.

Antes de a banda entrar em estúdio, porém, uma decisão daquelas que só o Radiohead tem culhão de tomar levou o grupo para shows na Espanha e Portugal em julho e agosto com nada menos do que 16 canções inéditas na bagagem sendo que 12 entraram em “Hail To The Thief”. Os shows caíram na web, fãs discutiam e babavam nas novas canções, e a banda acompanhava online o burburinho como se estivesse consultando amigos sobre o que fazer com seu próprio futuro.

Como resultado deste método, as gravações de “Hail To The Thief” duraram apenas quatro semanas, com a banda optando por duas semanas na ensolarada Los Angeles (e outras duas em sua cidade natal, Oxford) em detrimento de estúdios do gélido leste europeu que abrigaram as sessões de “Kid A” e “Amnesiac”. Explicava Thom Yorke: “Os dois últimos registros em estúdio foram uma verdadeira dor de cabeça. Gastamos tanto tempo com computadores que chegamos a um ponto em que dissemos: ‘Isso é suficiente. Nós não podemos mais fazer isso’”. Não podiam, mas fizeram de novo. Ou quase.

“Hail To The Thief” não é só o alardeada volta às guitarras do quinteto. Ele bate no liquidificador a inocência juvenil (aqui, vertida em experiência) dos dois primeiros álbuns com a virulência distanciada dos dois discos de esconderijo (”Kid A” e “Amnesiac”). O resultado é, ao mesmo tempo, simples e grandioso. Climas densos alternados com guitarras, às vezes, na mesma canção. As canções soam mais cheias, inventivas, variadas, tensas, emocionais. É o Radiohead atingindo a maioridade e se reinventando em um mundo que se reinventa a todo minuto.

Cinco anos depois de “Ok Computer”, o mundo já tinha digerido e entendido qualé a do grupo, o que fez com que o álbum decolasse nas paradas, mas não transformasse a banda na última novidade do verão (algo meio inconcebível já que, naquela época, eles carregassem dez anos de estrada nas costas). Eles deram uma volta ao mundo e decidiram parar o tempo, optando por brincar – estilosamente – de difíceis na expectativa de que o mundo os alcançasse. E finalmente o mundo os alcançou, mas se as guitarras voltaram ao som do quinteto, o mau-humor com o estado das coisas atingiu picos estratosféricos nas letras.

Não à toa, se a palavra “amor” ficou de fora de “Amnesiac”, em “Hail” ela só aparece perdida e nua na última (e grande) música do álbum, “A Wolf At The Door”. Nas outras, “inferno”, “veneno”, “diabo”, “frutas podres”, etc…, nos fazem lembrar que viver no Planeta Terra no ápice do capitalismo não é brincadeira, afinal, esse é o lugar em que “2 + 2 = 5?. É a faixa que abre “Hail To The Thief”. Ela começa eletrônica para no terceiro segmento explodir em barulho de guitarras. Em “Sit Down Stand Up”, outra faixa eletrônica e carregada de climas, uma voz ordena: “Ande pelo portal do inferno”.

Já “Backdrifts”, também dominada por batidas eletrônicas e teclados gélidos ao fundo, define: “Nós somos frutas podres / Nós somos artigos estragados / Que diabos, não temos nada mais para perder / Um vento e nós vamos provavelmente esfarelar”. O rock dá as caras em “Go To Sleep”, uma das grandes canções do álbum. Thom repete e repete e repete: “Só por cima do meu cadáver”. A excelente “Where I End and You Begin” tem como personagem um anjo que não pode participar da história e fica observando tudo das nuvens, mas não pode descer, e que no final sentencia: “Eu irei comer todos vocês vivos / Não haverá mais mentiras”.

“We Suck Young Blood” tem clima jazz de botecos toscos no fim de uma noite terrivelmente escura. “The Gloaming”, a faixa mais chatinha do disco (na cola dos climas desconstruídos de “Kid A”/”Amnesiac”), avisa: “Gênio, saia da lâmpada: é hora das feitiçarias”. O single do disco e uma das faixas poderosas do Radiohead nos anos 00 se chama “There There” e começa como uma mantra, com tambores (tocados em shows por Jonny Greenwood e Ed O’Brien) fazendo a cama para a voz de Thom Yorke que crava no peito do ouvinte: “Só por que você sente, não significa que esteja lá”. No final, após um belíssimo solo de guitarra, outro aviso: “O Céu enviou-te para mim / Nós somos acidentes que ainda vão acontecer”.

“I Will” é uma belíssima balada valorizada pela melancolia da voz e coro. O final do álbum aposta na eletrônica com a ótima “A Punchup at a Wedding” (de letra escarrada: “Você tinha que mijar no nosso desfile / Você tinha que estragar nosso grande dia / Você tinha que arruinar tudo por causa / De uma briga de bêbados no casamento”), a pirada “Myxomatosis” (”O gato vira-lata voltou pra casa / Carregando uma cabeça / E foi direto exibi-la / Aos seus novos amigos”) e a bonita “Scatterbrain”, uma canção prima em climas e nudez de “I Will”.

Senhores de seus próprios destinos, os integrantes do Radiohead conquistaram o direito de fazer o que quiserem em um disco. “Hail To The Thief” exibe flashs dessa liberdade num resultado tão coeso que soa injusto deixa-lo sob a sombra de “The Bends”, “Ok Computer”, “Kid A” e “Amnesiac”, os quatro álbuns que dividem a preferência dos ardorosos fãs do grupo. É um complicador para quem se acostumou a lançar obras definitivas, pois qualquer coisa que esteja um pouco inferior fica em segundo plano. E, geralmente, essas obras menores são maiores do que a carreira inteira de saqueadores e não iluminados. Se fosse um disco do Muse, do Elbow, do Remy Zero ou do Coldplay, “Hail To The Thief” seria considerado uma obra-prima. É um disco belíssimo de uma banda singular, rara, especial, repleta de belíssimos discos.

Para o final, “Hail To The Thief” convoca Beethoven na melhor canção do álbum. A “Sonata ao Luar” abre “A Wolf at the Door”, faixa derradeira do álbum. Thom Yorke está furioso e atropela frases desconexas que montam um clima absurdo e doentio. É o mundo desencantado e claustrofóbico do vocalista se parecendo cada vez mais com o mundo de todos nós. Mas, claro, nem tudo está perdido. E a esperança é jogada nos braços das “crianças”, provavelmente a palavra mais repetida em “Hail To The Thief”. Parece que Thom assume o mundo sombrio que vivemos sem desistir de lutar, sabendo que as crianças de hoje têm tudo para ser a salvação do amanhã. Na terceira faixa, “Sail to the Moon”, uma dica: “Talvez você seja presidente / E saiba o que é certo e o que é errado / E no meio da inundação / Construirá uma arca”.

E o filho de Thom Yorke se chama Noé…

Radiohead
Hail To The Thief
(2003)

1. 2 + 2 = 5
2. Sit Down. Stand Up
3. Sail To The Moon
4. Backdrifts
5. Go To Sleep
6. Where I End And You Begin
7. We Suck Young Blood
8. The Gloaming
9. There, There
10. I Will
11. A Punch Up At A Wedding
12. Myxomatosis
13. Scatterbrain
14. A Wolf At The Door

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Radiohead - Amnesiac (2001)

Amnesiac, a vanguarda do rock
[Por Marco Tomazzonido do iG Música e do US Cultura para o site Scream & Yell]

No início do século, o Radiohead era aquele grupo que tinha esculpido um lugar na santíssima trindade do rock contemporâneo com o irrefutável “Ok Computer”. A soberania não fez com que o grupo pisasse no freio e, na virada da década, o mítico ano 2000, apareceu “Kid A”, um disco que abria mão das guitarras para investir em inquietude, experimento e dor, muita dor. A surpresa foi, apenas oito meses depois, “Amnesiac” ter sido lançado, irmão em primeiro grau do álbum anterior.

Ambos foram gravados nas mesmas sessões e separados ao nascimento. Não são poucas as coletâneas encontradas na web em que fãs tentam achar qual seria a ordem correta das faixas se as gravações tivessem dado origem a um disco duplo. Apesar do parentesco inconteste, cada um tem sua personalidade. “Amnesiac” não se trata, como alguns simplistas possam pensar, de uma coleção posterior de lados B, pelo contrário: os álbuns refletem prismas diferentes. Como disse Thom Yorke, “Kid A” vê fogo na floresta; em “Amnesiac”, se está na floresta.

A filiação, no entanto, deixa evidente a tentativa de abandonar o rock tradicional, entre aspas, e abraçar a vanguarda, onde não se tem fronteiras. Versos quebrados, filosofia e eletrônica entram em cena para atirar ao alto a vontade de agradar as massas e agradar, sim, as massas cinzentas. O guitarrista Ed O’Brien já afirmou que o objetivo do quinteto era trabalhar como um coletivo, subverter o conceito de banda para investir em “sons”, por mais abstrato que isso possa parecer. O fato é que eles chegaram a algo parecido, uma maturidade interna iniciada no experimentalismo de “Kid A”, em que melodias deram espaço a texturas perturbadas, herméticas, complexas como harmonias de jazz e circulares como krautrock.

“Amnesiac” abre com “Packt Like Sardines in a Crushd Tin Box”, que repercute na percussão metálica a lata do título. A melancolia, desespero e desilusão característicos da pena de Yorke temperam a letra. “Após anos de espera, nada aconteceu”, ele canta, numa linha eletrônica típica do Aphex Twin, entremeada por distorções e ruídos climáticos, originários de um território desconhecido.

Na época, Thom Yorke declarou à imprensa britânica que o álbum transmite a sensação de se “encontrar um velho baú no sótão recheado com notas, mapas e descrições de um lugar de que você não consegue se lembrar”. Na contracapa, uma advertência na mesma linha: “Guarde longe da luz direta, preferencialmente numa gaveta escura com seus segredos”.

Ecos disso deságuam na primeira faixa de “Amnesiac” e escorrem por todas as outras. “Pyramid Song”, a canção seguinte, trata pura e simplesmente de suicídio. O piano dita notas melancólicas e carregadas de agonia, apenas três, para uma bateria no fundo, firme, acentuar o drama. “Não havia nada para temer e nada para duvidar.” Com ajuda das orquestrações de Jonny Greenwood, tenta nos convencer do alívio da morte. Música nada usual para ser escolhida como primeiro single, prova de que, apesar de ligado à EMI, o Radiohead não tinha nada de submisso e segurava com garbo as rédeas da carreira.

Yorke chegou a falar que “Pyramid Song” era a melhor coisa que o Radiohead já tinha gravado. Hoje nem ele deve mais acreditar nisso: disse no calor da hora, talvez numa tentativa de autoafirmação ou validação da experiência do grupo. Até porque o mesmo ar experimental e de efeitos distorcidos passeia por “Pull/Pulk Revolving Doors”, liderada por uma batida eletrônica envolvente como as portas da letra, armadilhas que se fecham para não abrir mais.

A primeira grande gema reluz em “You and Whose Army?”. Um coro cantarolando no início dá a entender que vem beleza, e só surge dor. Acompanhado por uma guitarra chorosa, Yorke debocha com voz cambaleante, de alguém que já apanhou, a boca cheia de sangue, moral na sarjeta, mas seguro de que estar na pior não quer dizer porcaria nenhuma. “Pode vir se você acha que consegue encarar todos nós”, desafia, em um recado direto, dizem, ao então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e a seus companheiros do partido trabalhista.

As guitarras, cuja ausência serve de munição para a grande maioria dos detratores de “Kid A” e “Amnesiac”, dão seu recado em “I Might Be Wrong”, também título do álbum ao vivo lançado pouco depois. Levemente dançante, a música dá destaque para o baixo de Colin Greenwood e muda de clima rumo ao final, abrindo alas, veja só, para um pequeno solo de O’Brien.

Na sequência, vem a assombrante “Knives Out”. Sem experimentações, segue uma linha de guitarra que se esgueira do início ao fim. A simplicidade, reza a lenda, fez com que ela levasse mais de um ano para ser concluída, já que o grupo nunca parecia estar satisfeito com o resultado. A letra, um primor, é aberta o suficiente para ser interpretada como canibalismo, como Yorke já comentou, ou como a perda de um ente querido. É mais divertido, claro, imaginar que se trata de uma aventura canibal encerrada com o verso “coloque ele na panela”.

Incluída em “Kid A”, “The Morning Bell” ganhou uma regravação diferente, e melhor. Saiu a bateria marcada de Phil Selway para entrar um xilofone, lindo, evocando um desespero angelical, seja lá o que isso for. A instrumental “Hunting Bears” também supera “Treefingers”, do disco anterior. Sozinha, acompanhada apenas pelo vento (!) e por um sintetizador discreto, a guitarra de Jonny evoca um clima árido típico das trilhas sonoras de Ry Cooder.

Se “Amnesiac” tem seus pontos altos, peca por não ter uma sequência deliberada – o conjunto de faixas é menos coeso do que “Kid A” e é agrupado de modo arbitrário, dizem até que de forma proposital, para provocar uma estranheza clara entre os dois discos. Especulações à parte, é notório que “Dollars & Cents”, uma crítica genérica de Yorke ao sistema financeiro, e “Spinning Plates”, quase ininteligível ao brincar com sons ao contrário, seguem o mesmo espírito do álbum, mas têm menor quilate no conjunto.

O mesmo não se pode dizer de “Life in a Glass House”. Gravada no final de 2000, em uma sessão de estúdio exclusiva, a música dá um passo à frente ao flerte com o jazz esboçado em “The National Anthem” e, grosso modo, é justamente isso: o Radiohead tocando jazz. Na verdade, o crédito é mais de Humphrey Lyttelton e sua banda – o saudoso trompetista, na época com 80 anos, é apontado por Greenwood como o principal responsável pela faixa. Ao lado do clarinete, o trompete brilha no refrão, em um dos principais destaques do álbum. Não é a despedida sacra e redentora de “Motion Picture Soundtrack”, mas fornece a salvação do mesmo modo.

Importa saber para onde pende a balança, se para “Kid A” ou “Amnesiac”? Nem um pouco. A competição entre irmãos é real (quem tem sabe como funciona) e, por mais que os pais digam o contrário, sempre há um preferido. Há quem aposte no primogênito, outros vão acabar ficando com o irmão menor, tem gosto para tudo. Importa, sim, é que juntos os dois álbuns demarcam um dos alicerces do que é o Radiohead hoje, pós “Hail to the Thief” e o cheque-mate midiático de “In Rainbows”: a banda mais influente do rock mundial, uma mistura de guitarras, melodia e vanguarda. Parece definitivo, presunçoso demais, como as verdades sempre parecem.

Radiohead
Amnesiac
(2001)

1. Packt Like Sardines In A Crushed Tin Box
2. Pyramid Song
3. Pull/Pulk Revolving Doors
4. You And Whose Army?
5. I Might Be Wrong
6. Knives Out
7. The Morning Bell/Amnesiac
8. Dollars And Cents
9. Hunting Bears
10. Like Spinning Plates
11. Life In A Glasshouse

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