Radiohead - Kid A (2000)

Kid A, o Radiohead no topo do mundo
[Por Luís Henrique Pellanda para o site Scream & Yell]

A Melancolia sempre esteve clinicamente ligada à personalidade artística. Doença ou estado de espírito, ela pode revelar tanto o gênio quanto a perversidade. Na história, na literatura, nas artes em geral, não foram poucos os melancólicos patológicos, fictícios ou não, que exibiram, com prazer e em público, seu dom maior e mais particular: um senso de humor singularíssimo, irreverente mas fechado para o entendimento médio. Melhor exemplo disso é Hamlet, espécie de precursor da melancolia do Ocidente.

Radiohead. Aí está uma banda que não ri. Ou raramente ri. A acidez quase infantil de Thom Yorke, em contraste violento com a afetação doce de sua voz, sugere aquele mal-estar típico dos que parecem estar sofrendo de uma azia constante, ali, bem no estômago da alma. O que não impede ninguém de achar graça nele e no que ele faz. No bom sentido. Porque Yorke tem declarado à imprensa, de forma velada, a sinceridade de suas intenções cômicas. Afinal, todo cronista do absurdo é, por obrigação, um pouco comediante.

E a piada da vez é fazer pouco caso da importância que o mundo passou a dar às suas queixas. Yorke, hoje, é um menino mimado. Objeto de culto incondicional, tornou-se o juggernaut ao qual ele próprio se referia em “Ok Computer”, o tal “carro de Jagrená” da mídia, alvo de devoção cega e sacrificial. Em outras palavras: uma droga de vaca sagrada. É um lunático genial e depressivo; um infeliz tão experiente e conhecedor de sua desgraça que pressupõe-se que se use sempre ouvi-lo e consultá-lo. Mas estejamos atentos: Hamlet também fingiu ser louco, e essa sua demência tática era o que tinha de mais original e divertido.

Divirtam-se, portanto, e sem culpa: é tudo pose, é máscara e teatro. Ironia marota, projeto de mau humor, tratado leve de niilismo. Thom Yorke, grande artista pop, deve ter lido Voltaire antes de compor as canções deste excelente “Kid A”. Logo na primeira faixa, “Everything In Its Right Place”, ele parafraseia o autor de “Cândido” ou “O Otimismo”. No clássico de Voltaire há um pretenso sábio, caolho e sifilítico, Pangloss, que passa a vida repetindo a máxima do pensamento mágico e positivo: tudo está o melhor possível neste que é o melhor dos mundos possíveis. Na canção do Radiohead, Yorke macaqueia os que acreditam na repetição hipnótica de uma idéia como método para transformá-la em realidade prática. Mil vezes seguidas ouve-se o verso: “Tudo está em seu devido lugar”. Esta impressão de paródia é ainda mais sensível na faixa 6 que, providencialmente, chama-se “Optimistic”. E o refrão proclama a grande mentira do conformismo moderno: “Se você faz o melhor que pode, então o seu melhor possível já é bom o bastante”.

Agora que está no topo do mundo, o Radiohead brinca com a própria imagem. Lança um disco em que foge de quase tudo o que o fez popular: não há guitarras sujas nem melodias espaçosas; a voz de Yorke está camuflada, pequena, escondida sob a produção linda e quase gelada de Nigel Godrich, o mesmo de “Ok Computer”. O disco todo, aliás, é frio. E é surpreendente como lembra, às vezes, Kraftwerk. Há pouco de humano (e, estranhamente, muito de alemão) em “Kid A”. De longe, por controle remoto. Nunca dá margem a crescendos emocionais. Em “How to Disappear Completely”, Yorke canta: “Não estou aqui. Isso não está acontecendo”. E é a mais pura verdade.

Em todo o disco, não se pronuncia a palavra “love”. Como se o amor fosse artigo proibido. Cândido, aquele “otimista”, já dizia: “Para cada beijo, vinte pontapés por trás”. Também não há sexo nem ódio, não se fala em nada edificante nem desprezível. E, paradoxalmente a essa ambiência desagradável de morte dos sentidos/sentimentos, dentro da armadura blasé que veste e protege “Kid A”, ainda há espaço para referências inesperadas à cantigas de roda infantis e bestas, recordações de cirandas lúdicas e passadas.

Na faixa-título, Yorke diz: “Ratos e crianças me seguem para fora da cidade”. É que ele se compara ao vingativo flautista de Hamelim, personagem de Robert Browning, poeta inglês do século XIX. O flautista do poema, com a doçura de sua música, encanta primeiro os ratos daquela cidade. Os bichos se atiram no rio e morrem. Depois, ele enfeitiça as crianças do lugar, que o seguem dançando até desaparecerem na floresta. O flautista livra, assim, Hamelim de um mal: afoga na corredeira os seus pavores e mágoas. Mas, levando embora seus filhos, rouba, do povo de Hamelim, toda a inocência e alegria, a fé na continuidade de cada vida. E, fora isso, o que resta? Voltar ao primeiro parágrafo.

Faixa a Faixa:

‘Everything In Its Right Place”: R.E.M. A sonoridade sem data de “Up”. Envelhecimento artificial. Yorke segue Stipe. Como se sente? “Acordei chupando um limão”.

“Kid A”: Kraftwerk. A voz robótica é quase inaudível. Descaracterização intencional.

“National Anthem”: O groove lembra “Airbag”. Voz entubada. Uma dúzia de músicos de sopro irrompe em sessão de jazz inusitada.

“How to Disappear Completely”: Balada do velho Radiohead. Suspeita de quem a ouve: quando Yorke diz que desapareceu, acreditar nele parece fácil. Um fantasma convincente afirmando que não existe.

“Treefingers”: Bowie e Eno fizeram parecido com as peças instrumentais dos discos berlinenses. É a Alemanha, de novo. Ninguém vai dar a mínima.

“Optimistic”: Convencional e irônica. Parodia uma canção infantil tradicional: “Um porquinho foi ao mercado, outro veio do pântano”.

“In Limbo”: Um pouco amortecida, de propósito. Em um mundo de fantasias de beleza, prazeres estéticos fáceis.

“Idioteque”: Yorke canta com raiva pela primeira vez em meia hora. Contradiz a obra: “Isto está acontecendo de verdade”. Última chance para dizer “presente”.

“Morning Bell”: Irrelevâncias da separação: “quem vai ficar com a mobília?” Alguém quer partir: “Onde você estacionou o carro?” O julgamento sábio de Salomão: “Corte as crianças ao meio”. Triste, terrível.

“Motion Picture Soundtrack”: Base de acordeão. O abre-e-fecha das palhetas. De repente, um ataque de harpa. Parece Disney. Acaba e você está feliz.

Radiohead
Kid A
(2000)

1. Everything In Its Right Place
2. Kid A
3. The National Anthem
4. How To Disappear Completely
5. Treefingers
6. Optimistic
7. In Limbo
8. Idioteque
9. Morning Bell
10. Motion Picture Soundtrack
11. Untitled

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Radiohead - OK Computer (1997)

OK Computer, um disco fundamental
[Por Tiago Agostini do blog Balada do Louco para o site Scream & Yell]

Direto ao ponto: “Ok Computer” é o disco fundamental na trajetória e discografia do Radiohead. É o rito de passagem de uma banda de relativo sucesso e boas composições para a banda mais influente e importante do mundo desde então. É o disco que inicia o culto ao quinteto e dá uma imensa carta branca nas mãos de Thom Yorke e seus companheiros para fazer o que bem entenderem com a indústria. Porque, por mais que “Pablo Honey” tivesse uma grande música (“Creep”) e “The Bends” fosse um apanhado de lindas canções dolorosamente melódicas, a banda até então não tinha ousado e colocado uma assinatura própria em seu som. E, óbvio, foi a evolução de “Ok Computer” que conquistou a devoção de milhões de fãs e alçou a banda ao posto de salvação do rock, transformando Yorke (a contra-gosto) em líder e porta-voz de uma geração.

Sonoramente o disco faz uma releitura tanto do psicodelismo quanto do progressivo, limando os excessos de cada gênero e acrescentando as doses de melancolia tão presentes nos discos anteriores da banda. Mas, ao contrário dos antecessores, mais calcados na harmonia das músicas como um todo, “Ok Computer” apresenta uma preocupação imensa com os detalhes, com os timbres, com as texturas, com os pequenos riffs e solos que pontuam cada verso e estrofe. Suas músicas são mais do que apenas uma base melódica. Elas são como peças de um quebra-cabeça sonoro cuidadosamente estruturado. Seja nos momentos mais densos, como “Exit Music (For A Film)”, “Lucky” e “Climbing Up The Walls”, nos momentos mais vibrantes de “Airbag” e “Paranoid Android”, no britpop de “Electioneering”, ou no lirismo de “Let Down” e “No Surprises”, a banda vai acrescentando um a um os acordes, as notas, as mudanças, os climas, sem se preocupar com as fórmulas básicas da música pop. Basta dizer que é um disco quase sem refrões.

Olhado com a distância do tempo, “Ok Computer” se apresenta como o retrato de toda uma geração. É como uma ópera-rock que versa sobre a vida moderna, uma crônica em preto e branco do século 21 e principalmente do pós-11 de setembro (não à toa, Thom Yorke sempre foi tratado como visionário). Traz no amargor e na voz sofrida do vocalista a carga de uma era em que as pessoas cada vez mais se isolam de tudo e criam barreiras ao seu redor. É uma época em que a convivência fica cada vez mais distante e impessoal. O egoísmo e a solidão estão presentes o tempo inteiro nos versos cínicos do cantor. Se “The Bends” era um disco basicamente sobre as relações humanas (majoritariamente românticas), “Ok Computer” é um disco sobre o conflito do homem consigo mesmo, um auto-retrato da angústia tão característica do vocalista – e que o assolaria como nunca após o sucesso estrondoso do álbum.

Como retrato de nossa era, “Ok Computer” diagnostica e radiografa perfeitamente os tempos do “politicamente correto”. Primeiro em “Karma Police” e sua ameaça constante de que “isso é o que você leva, quando mexe conosco”. Mas nada como “Fitter, Happier” para explicar a monotonia e mesmice em que tantas pessoas tentam transformar o seu, o meu, o nosso mundo. Esteja em forma, trabalhe bastante, não beba em excesso, coma de forma correta, conviva melhor com as pessoas. Parece o discurso da abertura de “Trainspotting”, um manual de regras simples para a felicidade. De nada adianta, porém, pois esse alívio momentâneo é destruído com força pelo pessimismo assolador de “No Surprises”, um dos melhores retratos do que uma vida com regras pré-estabelecidas pode causar, e que foi traduzido de forma exuberante em seu clipe, em que o vocalista é “afogado” em um aquário enquanto canta: “No alarms, no surprises”. É assim que vale a pena viver, sem ter nenhum tipo de novidade?

No entanto, sem dúvida alguma, a música que melhor expressa o disco como uma unidade é “Paranoid Android” – não por acaso a melhor música da banda. Começa com Yorke tentando espantar seus fantasmas internos enquanto os riffs de guitarra entrelaçados e a linha de baixo circular hipnotizam. O vocalista vai destilando sua ironia e expurgando seus demônios enquanto a canção cresce, até explodir no solo nervoso, rápido, urgente de Jonny Greenwood. De repente tudo acalma e um coro angelical começa a clamar pela chuva, uma pretensa redenção, que chega aos poucos, mas muito mais delicada do que em “Magnólia”. Para terminar a possível lavagem da alma, nada melhor do que uma lógica religiosa máxima transbordando cinismo. “Deus ama seus filhos, Deus ama seus filhos”. É necessário repetir muito para acreditar e não ficar louco neste mundo. “Ok Computer” é, enfim, desde seu título, uma rendição aos tempos modernos. Não há como escapar do que se tornou a nossa época.

Alçada ao posto de melhor banda do mundo, o Radiohead teve que lidar com uma fama que nunca almejou. Para isso, o grupo criou uma base sólida em si mesmo e resolveu traçar seu próprio caminho, com cada passo milimetricamente calculado. O que aconteceu depois disso é história, que culmina com o lançamento de “In Rainbows” em 2007, o álbum que colocou abaixo todo o modelo de indústria musical como a conhecíamos. Mas nada disso seria possível se, 10 anos antes, a banda não tivesse arrebatado uma multidão de fãs com “Ok Computer”. Um disco sublime do primeiro ao último acorde, uma verdadeira obra de arte atemporal capaz de ser reanalisada e redescoberta por novos ângulos com o passar dos anos. O mundo mudou nesse tempo, e só o Radiohead parece ter percebido isso… dez anos atrás.

Radiohead
OK Computer
(1997)

1. Airbag
2. Paranoid Android
3. Subterranean Homesick Alien
4. Exit Music (For A Film)
5. Let Down
6. Karma Police
7. Fitter Happier
8. Electioneering
9. Climbing Up The Walls
10. No Surprises
11. Lucky
12. The Tourist

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Radiohead - The Bends (1995)

The Bends, o melhor do Radiohead
[Por Renata Honorato do blog Game Girl para o site Scream & Yell]

Quando o “The Bends” foi lançado, em março de 1995 no Reino Unido e um mês depois nos Estados Unidos, esta escriba que vos fala tinha apenas 13 anos. Você vai pensar: “E quem essa pirralha pensa que é para dar voz àqueles que julgam ‘The Bends’ o melhor álbum do Radiohead?”. E então eu respondo humildemente: “Alguém que ainda sente um aperto no peito ao ouvir ‘Don’t leave me high. Don’t leave me dry’, como se o refrão, e seu agudo característico ‘à la Thom Yorke’, fosse um grito adolescente de um adulto que tem medo de crescer”.

Piegas? Não para o Radiohead em sua primeira obra realmente prima. Maduros, sem medo da popularidade que perseguiu “Creep”, no justo “Pablo Honey”, o quinteto britânico mostrou em seu segundo álbum toda a personalidade que mais tarde seria “marca registrada” do grupo.

Minha história com o “The Bends” aconteceu muitos anos após o seu lançamento, justamente durante uma tarde de sábado qualquer em que gastava minhas horas assistindo a um DVD do que considero um dos melhores programas de TV de todos os tempos: o Jools Holland. Em uma apresentação datada de 27 de maio de 1995, o Radiohead, que ainda carregava consigo uma postura de uma banda iniciante, cheia de paixão e excitação, e liderada por um Thom Yorke ainda loiro, tomava minha atenção tocando a música que, não à toa, dá nome ao disco. Jonny Greenwood fazia nascer de sua guitarra riffs ainda inéditos para mim, uma garota de 20 anos que ainda frequentava a Galeria do Rock na esperança de conseguir toda e qualquer parafernália do Descendents. Sua guitarra, uma das características mais pertinentes do álbum, trouxe-me a essência multilateral do rock’n'roll de um jeito novo, diferente do que tinha aprendido com punk e com o hardcore. Aconteceu. Simples assim.

Foi esse amor à primeira vista que, provavelmente, colaborou para que o meu PlayStation 2 não conseguisse mais adiantar o DVD do Jools Holland até a faixa “The Bends”. Na época, uma pobre estagiária no sentido mais literal da palavra, o videogame também fazia a vez de DVD player. E foi assim, entre trancos e barrancos, que consegui uma cópia do álbum.

O “The Bends”, por incrível que pareça, não foi o meu primeiro CD do Radiohead. O primeiro álbum da banda britânica que comprei foi o “I Might Be Wrong - Live Recordings”, que, evidentemente, não conquistou muito a minha simpatia. Eu ainda não sabia que o Radiohead é o tipo de banda que precisa ser degustada devagar, fase por fase, de cabeça aberta.

É difícil dizer qual a melhor faixa de “The Bends”. Ainda hoje o pessimismo de “Bullet Proof…I Wish I Was” e o final de sua primeira estrofe “everyday, every hour wish that I was bullet proof” mexem comigo. Claro que não dá para, simplesmente, ignorar a “Fake Plastics Tree”, principalmente depois que a DM9, de olho no bonde do sucesso onde o Radiohead tinha lugar reservado na janelinha, produziu o comercial cujo protagonista era o Carlinhos. Você lembra, certo? Okay, Carlos Manga Júnior, diretor do vídeo, merece os créditos; o trabalho ficou à altura da poesia cantada por Thom Yorke.

Os altos e baixos são características padrão do álbum. Se em “High and Dry” a súplica é por um “não me deixe mal, me deixe sozinho”, em “Just” o acorde limpo dá lugar a uma guitarra suja, agressiva, e a um refrão sem frescura (você fez isso para você mesmo, você fez, e isso é o que realmente dói). Foi nessa canção, e na guitarra de Greenwood, que comecei a perceber o grande potencial do Radiohead que, anos mais tarde, me levaria a uma busca incansável, através do Atlântico, às margens do Tâmisa.

Não é contraditório dizer que o “The Bends” foi o grande responsável em elevar o Radiohead ao patamar de “big band”. Bem produzido, consistente, maduro e sincero, o disco é um misto perfeito entre a jovialidade da banda tão presente em “Pablo Honey” e os pulsos fortes, ainda mais marcantes em “OK Computer”, lançado em 1997.

E se restava alguma dúvida quanto à qualidade incontestável do álbum, os três minutos de “Just” (a 12º música do show que vi em Londres), o coração acelerado e as lágrimas que ameaçavam cair naquele 24 de junho provaram o que lá dentro eu já sabia: “O ‘The Bends’ é e sempre será o melhor álbum do Radiohead”.

Radiohead
The Bends
(1995)

1. Planet Telex
2. The Bends
3. High And Dry
4. Fake Plastic Trees
5. Bones
6. (Nice Dream)
7. Just
8. My Iron Lung
9. Bullet Proof ... I Wish I Was
10. Black Star
11. Sulk
12. Street Spirit (Fade Out)

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Radiohead: 15 Step (feat. USC Marching Band) from the Grammys [VIDEO/MP3]

Radiohead na festa do Grammy no dia 2 de fevereiro de 2009, tocando 15 Step, acompanhado pela banda de fanfarra USC Marching Band. Muito bom.
video

DOWNLOAD MP3: Radiohead - 15 Step (feat. USC Marching Band) from the Grammys

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Tour 2009: Americas Central e do Sul

A turnê do Radiohead passará em março de 2009 pelas Américas Central e do Sul, sob muita expectativa de todos, um grande sonho, ao menos dos brasileiros, que pela primeira vez terão a opurtunidade de ver os 'cabeças de rádio' em 'terras brasilis'.
Como se já não bastasse, teremos a luxuosa partiticipação muito mais que especial das lendas vivas da banda alemã Kraftwerk e show (só para a ocasião) dos cariocas dos Los Hermanos.

Datas:
• 15 mar 2009, Foro Sol, Mexico City
• 16 mar 2009, Foro Sol, Mexico City, México
20 mar 2009, Praça da Apoteose, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
22 mar 2009, Chácara do Jockey, São Paulo
• 24 mar 2009, Club Ciudad, Buenos Aires, Buenos Aires (provincia)
• 26 mar 2009, San Carlos de Apoquindo Stadium, Santiago
• 27 mar 2009, San Carlos de Apoquindo Stadium, Santiago

Ingressos: ingresso.com.br

Mais informações: justafest.com.br & radiohead.com/tourdates

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Radiohead - Pablo Honey (1993)

Pablo Honey, obra-prima do Radiohead
[Por Eduardo Palandi do blog Life In Slow Motion para o site Scream & Yell]

Antes de começar a falar sobre “Pablo honey”, primeiro disco do Radiohead (e já lá vão quinze anos), deixe-me fazer uma pergunta: ao entrar nesse texto, você soltou alguma coisa do tipo “lá vem a ovelha negra”? Bom, se não falou ou pensou isso, alguém aí deve ter falado. Radiohead, em qualquer conversa, é quase sinônimo da trinca “The Bends” / “OK Computer” / “Kid A”; um ou outro vai falar do “Hail to the thief”, alguém vai achar o “In Rainbows” genial. Mas da estréia do quinteto, ninguém fala.

Vacilo. Tenho todos os álbuns do Radiohead e descobri há dois anos que o meu preferido é o “Pablo Honey”. Heresia? Depende. A coisa que mais me prende em um disco geralmente é a sinceridade do artista nele. Como nas estréias de Ramones e Sex Pistols, como em “Scott 4”, do Scott Walker, em “Summerteeth”, do Wilco, no “A New Morning”, do Suede… e a lista segue. E, por mais que o Radiohead tenha se tornado genial na dupla “OK Computer” / “Kid A”, ele nunca foi tão sincero quanto na estréia.

A banda assinou com a Parlophone em meados de 1992 e lançou alguns singles que não geraram grande comoção no Reino Unido. Entraram para gravar o primeiro disco sob o descrédito do próprio selo, sem qualquer crítica apaixonada nem legiões de fãs. Esse “desprezo” por parte do mundo fez com que o grupo, aliado a uma produção competentíssima e pouco comentada, desse tudo de si nas sessões de “Pablo Honey” e saísse de lá com um disco que reflete todas as angústias dos cinco jovens integrantes e, ao mesmo tempo, o desprezo coletivo que parecia se abater sobre eles.

“Pablo Honey” abre com “You”, uma balada de amor obsessivo coberta por guitarras apocalípticas. Thom Yorke diz que ela é o sol e a lua e as estrelas, e que ele nunca poderia fugir dela, que faz tudo funcionar em meio ao caos, enquanto ele não acredita em si mesmo. Palhetadas. Berros. “É como se o mundo fosse acabar em breve”, enquanto Jonny e Colin Greenwood mantém uma tensão permanente. Segue-se “Creep”, outro hino da baixa auto-estima e a única música do disco que ainda é tocada ao vivo, ao ritmo de uma vez a cada vinte apresentações. Se tocarem no Brasil, será bonito: dezenas de trintões cantando “mas eu sou um feio, sou um esquisito / que diabos eu tô fazendo aqui? / eu não sou daqui”. Se não tocarem, a versão do disco, que os produtores Paul Q. Kolderie e Sean Slade acharam que era cover do grande Scott Walker, dá conta do recado.

“How Do You” conta, em terceira pessoa e em dois minutos, a vida de um mala metido a gostosão, que vive com a mãe, sacaneia os amigos. Provavelmente, foi escrita para algum desafeto. A cada refrão, Thom repete “e você?”, como se quisesse saber qual é a do ouvinte. Logo depois, “Stop Whispering”, a única faixa ruim do disco, cuja letra é mais uma prova do momento loser pelo qual Thom Yorke passava: “e minha mãe diz ‘nós cuspimos no seu filho mais um pouco’ / e os prédios dizem ‘nós cuspimos na sua cara mais um pouco’”. Deprimente. Um dos fansites do Radiohead diz que esta canção é uma homenagem aos Pixies, tentando soar como eles. A sensação de inadequação segue com “Thinking About You” e sua bela levada de violão: fala sobre ser deixado por alguém que virou famoso. Pouco se sabe sobre a vida amorosa dos cabeças de rádio, ainda mais numa fase tão derrotista – não deve, portanto, ser baseada em experiências próprias de ninguém da banda.

A primeira metade do disco é encerrada com o humor de “Anyone Can Play Guitar”, sacaneando os rock stars e repetindo “I wanna be, I wanna be, I wanna be Jim Morrison”, em pleno deboche. A essa altura, percebe-se que a estrutura musical das canções do início da carreira do Radiohead, sempre com duas ou três guitarras, baixo e bateria e no formato versos – refrão – versos, fazem pensar que a banda que gravou o “Kid A” não é nem do mesmo planeta que a do “Pablo Honey”. Mas o valor de Thom Yorke cantando “cá estamos, com nossa correria e confusão / e eu não consigo mais deixar de ver a confusão” vale por toda a carreira do grupo no século XXI.

O lado 2 abre com “Ripcord” e sua explosão grunge: a letra é sobre o contrato conseguido com a gravadora e a falta de perspectivas para a vida; há uma beleza indescritível nas guitarras dessa música, e nos sonhos que a letra traz ao ouvinte; o contrato ressurge na faixa seguinte, “Vegetable”, que fala das brigas com quem não acreditava no potencial do Radiohead. Antes de detalhar a canção, a sentença: “Vegetable” é linda. Tem a melhor performance vocal de Thom Yorke, um dos riffs de guitarra mais legais que alguém já colocou na abertura de uma música e uma letra simples e direta. Até cheguei a fazer uma versão, em português de Portugal, mas não mostro nem sob tortura. O texto original é agressivo como todo o disco:

Eu nunca quis nada além disso
Eu trabalhei duro, tentei duro
Eu contornei disputas domésticas
Eu lutei duro, morri duro

(…)

Toda vez que foges pra longe de mim
Toda vez que corres, eu posso ver

Que não sou um vegetal
Eu não vou me controlar
Eu cuspo na mão que me alimenta
Eu não vou me controlar.

(…)


Depois de tanto insistirem, eles estavam contratados e agora (com razão) jogavam isso na cara de quem não acreditou, para voltarem em “Prove Yourself” dizendo que não agüentavam mais respirar nessa cidade e que trabalham, sangram, ajoelham e rezam, mas preferiam estar mortos. Ah, a inadequação juvenil… o fato é que a banda logo parou de tocar “Prove Yourself” ao vivo, por se espantarem com a molecada repetindo “I’m better off dead” (risos).

Só uma banda tão loser poderia batizar uma canção de “I Can’t” (“eu não posso”), e ainda começar pedindo: “por favor, esqueça as palavras que vomitei / não era eu, era minha dúvida, feia e estranha”. E que, logo depois, cometeria outra obra-prima da auto-estima zero, de nome “Lurgee”:

Eu me sinto melhor
Eu me sinto melhor agora que você se foi

Eu estou melhor,
Eu estou melhor, eu estou mais forte

Eu me sinto melhor
Eu me sinto melhor agora que não há nada de errado

Eu estou melhor
Eu estou melhor, eu estou mais forte

Conte-me algo
Conte-me algo que eu não sei

Conte-me uma coisa
Conte-me uma coisa, deixe ir


Você já esteve numa situação dessas, de estar com alguém, não saber como agir e querer ir embora? Ou então de saber o que fazer mas simplesmente desejar que essa pessoa estivesse bem longe? Não responda em voz alta, por favor. É triste, mas é comum. Como já disse um amigo, “no amor não existem saídas, ninguém está certo ou errado, não existem regras. Existe você e existe quem você ama”. Feche os olhos, ouça a guitarra de “Lurgee” (gíria para doenças infecto-contagiosas) e boa sorte com o seu amor. E o disco fecha com “Blow Out”, uma fria canção de ninar que diz, entre outras coisas, “o tempo todo matando o que sinto” e “tudo que eu toco vira pedra”. Menos o coração de quem ouve o encerramento do disco.

Gastei todas essas linhas apenas para dizer que o que o Radiohead fez em “Pablo Honey” é se mostrar, sem vergonha nenhuma, sem se importar com o que os outros diriam, sem enfeitar seu som. Uma crueza difícil de se encontrar, um momento que a banda igualaria em qualidade em “OK computer” e “Kid A”, mas jamais em sinceridade.

Radiohead
Pablo Honey
(1993)

1. You
2. Creep
3. How Do You?
4. Stop Whispering
5. Thinking About You
6. Anyone Can Play Guitar
7. Ripcord
8. Vegetable
9. Prove Yourself
10. I Can't
11. Lurgee
12. Blow Out

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